Terça-feira, Setembro 15, 2009
Carta a um homem cuja vida outros escreveram
Você certamente se julga esperto quando suga a brisa de quem está a sua volta e a utiliza para mover as velas de suas próprias embarcações. Nem sempre, porém, haverá de quem roubar brisas, meu bom homem e, talvez, suas velas rasguem um dia. Costureiras com brisas roubadas quase sempre se recusam a costurar as velas de alguém com sua reputação, porque sabem apreciar a vingança e todos os seus delicados aromas e sabores. Também não resultará vantajoso chorar sobre os ombros duros de seu velho pai: este estará farto dos seus caprichos infantis e lhe dará as costas. Suas noites serão, assim, infinitas e secas, embaladas pelo choro dos que por você foram aleijados. Sua cabeça, enorme, repousará sobre farpas de arrependimento que cravarão na superfície de sua pele alva e jovem o veneno do envelhecimento amargurado e débil. Você certamente se julga vivo quando lança em terrenos de lodo negro suas descobertas mais preciosas e ri, como fazem todas as mentes egoístas, do que aquilo lhe proporcionará num futuro vindouro. Infelizmente, um dia o dinheiro que financia seus inventos mirabolantes acabará e não haverá modos de transformar em diamantes seus imundos segredos enterrados. Terá você mesmo que alimentar as onerosas fogueiras de sua vaidade, impedindo penosamente que as gotas salgadas de sua face operária apaguem as labaredas já conseguidas. Será uma vida brutal e ocre. E aqueles que um dia lhe dirigiram olhares fartos de compaixão estarão imensamente ocupados, tentando reerguer-se de investidas violentas, e não lhe dedicarão o mesmo amor. Dias claros, acredite, também lhe amanhecerão, mas não serão banhados de luz. Você verá que existirá um vácuo ameaçador, um imenso facho sombrio que lhe perseguirá aonde for. Então, o mundo que não fala a sua língua deixará de ser tão fascinante, porque mesmo neste a luz recusar-se-á a lhe prestar reverências. O sol, por ele mesmo, banir-se-ia da Via Láctea por sua causa, não fossem as leis físicas que sempre o regeram, e permaneceria mudo, mascarando o próprio rancor. Você se julga grandioso quando vê as coisas que construiu abaixo de sangue e suor alheios cintilando ao longe. Não vê que coisas feitas sem perícia e alma desmoronam como as folhas no outono? Não vê que o sangue e o suor de gente infeliz formam nada mais que uma liga mole e volátil, imprestável para a construção de pilares? Tudo virá abaixo, homem, e escute o que lhe digo: nada poderá ser aproveitado; de escombros apenas resultarão escombros. Milhares morrerão sob as vigas de suas construções arruinadas e você terá de pagar pelas vidas desfeitas e por aquelas impedidas de se fazerem, vítimas de sua indolência arrogante. Um dia, bom homem, tudo isso vai acontecer e você já terá sido prevenido. Os ombros de seu pai já começam a enrijecer. A noite começa a se alongar. Logo tudo cairá.
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Diego Spagnuelo às
21:24
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Domingo, Setembro 13, 2009
Mais linda do que nunca
A consultora de moda achou sua cliente tão linda que lhe odiou profundamente. Vestiu-a apenas com o que de mais asqueroso havia em seu guarda-roupa, desalinhou-lhe os cabelos e enfiou-lhe uns óculos escuros pavorosos. No fim da tarde, quando terminou sua obra monstruosa, olhou aquela mocinha maltrapilha e desfaleceu: a cliente estava mais linda do que nunca.
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por
Diego Spagnuelo às
21:27
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