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Segunda-feira, Agosto 31, 2009
Vinte e nove golpes
Eram onze e quinze da noite. A delicada Virgínia despertou ofegante de um pesadelo. Tinha sonhado que sob o testemunho da lua minguante assassinara a marteladas seu marido Orestes, tingindo de rubro aterrador o vestido branco que trazia ao corpo. Acordara com a mão direita fechada, como a segurar o cabo do martelo sonhado, e tomada por um sentimento ruim. Os ares do quarto pareceram-lhe pesados; cerrou as cortinas tentando escapar de algo intangível. Depois correu de volta à cama, envolveu-se nos lençóis ainda quentes e manteve-se escondida no escuro pleno. Ela sabia que aquela noite era de lua minguante e não podia esperar pela chegada do marido.
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Diego Spagnuelo às
21:02
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Domingo, Agosto 23, 2009
A sombra de Valuno: Amanhecer
Ocsion caminhou sem rumo durante cinco dias em meio a vegetações de pequeno porte e a árvores majestosas, encontrando cenários desoladores e paisagens delicadas em seu percurso. Com o corpo enfraquecido e sob alucinações causadas pelo cansaço, avistou um pequeno rancho e duas pessoas. Estava débil demais para esquivar-se da vista humana. Caiu. Em poucos instantes, o velho e a mulher jovem que ali moravam tinham-no alcançado. Levaram-no para dentro do casebre e deram-lhe alimentos e água. Perturbado com a devastadora verdade a respeito de Valuno, Ocsion sequer percebera a completa adaptação pela qual seu organismo, em contato com o ambiente terrestre, havia passado: sua estrutura física tinha se modificado na de um homem adulto. A pele, a face, os olhos, eram de um ser humano. "Agora eu entendo porque não hesitaram em se aproximar de mim quando me viram cair." - disse um dia, diante de um espelho da casa. Depois, contou tudo sobre si e sobre seu planeta e ainda assim continuou acolhido sem estranhamentos. Ganhou a confiança e a estima das pessoas a sua volta e com o tempo foi aprendendo as lições do campo e dedicando-se a ajudar quem necessitasse. Apaixonara-se perdidamente por aquela nova vida e pela jovem Laura, filha do homem que o tivera resgatado. Se casasse com ela, viajaria pelo espaço, desbravaria galáxias e mostrar-lhe-ia constelações de todo tipo. Pediu sua mão. Quatro anos depois o primeiro filho do casal nasceu e, como numa exaltação à vida, foi chamado Valuno.
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Diego Spagnuelo às
19:21
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Segunda-feira, Agosto 17, 2009
Valor inestimável
"Queira desculpar-me, senhora, mas este meu camisolão não apresentava esta terrível mancha cor-de-rosa quando o trouxe para lavar hoje cedo." - disse o elegantíssimo e cortês Otávio à dona da lavanderia, Ivana. "Não seja assim tão exigente, meu bom homem; quantos anos devem estar adormecidos neste pobre camisolão fora de moda? Esta peça ficou como nova!" A mulher costumava desviar a atenção das eventuais falhas cometidas por seu estabelecimento utilizando-se de falsos gestos amigáveis: "Podemos, no entanto, fazer-lhe um desconto de cinco porcento no valor do serviço e, garanto, tudo será esquecido." Mesmo um desconto de cinquenta por cento garantiria o lucro de sua lavanderia, pois os preços eram terrivelmente altos. "A senhora não está entendendo: eu preciso deste camisolão para trabalhar. Não posso me apresentar mal trajado." - Otávio estava visivelmente abalado. "Deixe de piadas, homem, e aceite o desconto!" - falou-lhe Ivana levemente ríspida. Ele de fato não podia trabalhar com o camisolão naquele estado, mas teria de vesti-lo de um modo ou de outro. Seus antepassados, que haviam usado aquele traje sob tempestades e calores infernais jamais tinham maculado um único centímetro do seu pálido tecido. Ele, Otávio, quiçá pudesse ser amaldiçoado por aquele deslize. "É a primeira vez que utilizo seus serviços, senhora, e seria uma grandiosa gentileza sua se pudesse tentar remover esta mancha abominável de meu camisolão. Estou disposto a pagar o dobro pelo serviço." Ouvindo aquilo Ivana não pôde recusar seus préstimos. Apanhou o camisolão das mãos do homem esbaforida. No dia seguinte, quando Otávio foi buscar o traje, encontrou-o alvíssimo. Ele, então, pagou o combinado e beijou as mãos de Ivana. Esta ficou extremamente satisfeita. Jamais descobriu que seu cliente era um fantasma de quilates vários: uma assombração de sangue nobre, cuja família, há séculos praticava a arte de amedrontar. Sempre, é claro, trajando o mesmíssimo camisolão branco.
Dedicado a Dennis D., amigo talentoso.
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Diego Spagnuelo às
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Domingo, Agosto 09, 2009
Estilhaços
O menino Hugo preparava-se para a escola. Enquanto fechava a pequena bolsa azul onde os materiais escolares ficavam guardados, a mãe, com sua bondade suprema alinhava-lhe as vestes e lhe amarrava os cordões dos sapatos. Poucas vezes houve maus dias para eles. Lucinda, aquela mulher de face tão amorosa sempre dizia coisas de grande valor ao menino e aconselhava-lhe somente conselhos bons. Em troca ele regressava à casa sempre com pequenos presentes para a mãe: num dia eram folhas secas de castanheiro, noutro eram desenhos repletos da mais pura imaginação infantil. Nestes costumava surgir a figura de um homem pomposo, de vestes escuras, que parecia andar de mãos dadas com a mãe. Ao fundo o pequeno aparecia desmanchando-se em lágrimas, acolhido por uma mulher gorda e um homem de chapéu. Lucinda sempre ria dos desenhos. Pensava que o filho não queria vê-la casada com outro homem e que por isso desenhava aquela cena tantas vezes. O menino era maduro como poucas crianças de sua idade, mas talvez não suportasse ter o amor de sua mãe dividido com um estranho. A mulher, porém, jamais perceberia que o filho era sensitivo e que representava em seus desenhos o dia em que as autoridades a apanhariam. O homem pomposo e de vestes escuras era, na verdade, um agente policial. A mulher gorda e o homem de chapéu, representantes do juizado de menores. Mesmo a contragosto, o pequeno Hugo seria devolvido a sua verdadeira família, e aquele seria apenas o primeiro de seus pequenos traumas pueris.
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Diego Spagnuelo às
23:10
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