Sexta-feira, Julho 31, 2009



O lago

Chovia, a mocinha apanhou o livro de receitas da mãe decidida a preparar deliciosos e calóricos bolinhos de chuva. Folheou as páginas daquele velho livro diversas vezes, mas não encontrou a receita que procurava. Encontrou, sim, uma foto de família. Ela própria, a mãe e o pai apareciam entre plátanos, numa viagem que tinham feito ao Canadá. No verso da imagem, encontrou os seguintes dizeres: "Querida Carolina, para sempre sentiremos sua falta". Carolina era ela, a mocinha, mas o texto não parecia fazer sentido. Guardou a imagem consigo. Mais tarde, quando os pais regressaram à casa, percebeu que seu acidente no lago congelado, aos quinze anos, tinha sido mais grave do que imaginava.



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:31
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Quinta-feira, Julho 30, 2009



Feito de açúcar

A doce mulher se olhou ao espelho e, pela última vez, sentiu-se ridícula com aquele vestido. Era certo que tudo não passava de atuação, e que o uso daquele traje branco fazia parte do espetáculo, mas ela percebia que seu pequeno parceiro estava começando a acreditar naquela farsa, dedicando a ela as perfumadas flores da paixão. Eles eram atores, apenas fingiam-se de amantes. A relação que nutriam não passava de teatro. Mas, Belmiro ficaria desolado quando soubesse que a mulherzinha não sentia por ele o mesmo que sentia por ela. Seu amor parecia ultrapassar a encenação. O fingimento, no entanto, devia acabar - estava decidido. Quanto mais aquela mentira fosse prolongada, mais sofrimento iria causar. A moça ajeitou o buquê cortando duas ou três folhas secas do arranjo, certa de que nunca mais precisaria voltar a fazê-lo. Depois subiu ao alto daquele morro açucarado. Lá estava o enamorado Belmiro, com seu fraquezinho bem cortado e com sua bela face de homem decente. Os noivinhos do bolo estavam prontos, mas até a festa de casamento se iniciar muitas horas transcorreriam.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:51
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Terça-feira, Julho 21, 2009



O vaso de madressilvas

A esquiva Mercedes era incapaz de exprimir qualquer sentimento. Na juventude tinha vendido sua alma a um homem gordo cujo nome era Orcílio - um negociador de almas, segundo ele próprio. O homem oferecera à Mercedes um lindíssimo vaso de madressilvas lilases que cintilavam vivamente em troca de sua essência vital, e ela aceitara. Nunca alguém havia oferecido tanto por ela. Sentiu-se tão benquista que até beijou a mão do homem em agradecimento. Quando recebeu seu pagamento e sua alma deixou seu corpo, porém, começou a enxergar as coisas de outra forma: Orcílio parecia tê-la enganado. As flores que recebera pela venda de sua alma eram completamente diferentes das oferecidas pelo homem. Qualquer pessoa perceberia a troca, pensara. "As madressilvas anteriores eram indiscutivelmente mais frondosas e reluzentes que estas, meu senhor. Exijo que me pague o combinado." - disse envolta numa apatia incomum. "As flores são exatamente as mesmas, meu pequeno anjo. Mas algo mudou. Não mais possui sua alma para esboçar qualquer espécie de emoção e tampouco para apreciar as belas cores ou sentir a vivacidade dessas madressilvas". - revelou-lhe o negociador. Depois disso, dobrou com delicadeza a alma da menina - um finíssimo e rosado traje translúcido -, pô-la num dos bolsos do paletó, apanhou alguns papéis, enfiou-os numa valise pequena e se foi. Mercedes permaneceu onde estava, olhando fixamente aquele irreconhecível vaso de madressilvas. Trinta anos haviam se passado desde então. As flores continuavam as mesmas: cinzentas, melancólicas. Mercedes, no entanto, havia piorado. Sequer podia interpretar o sabor de um morango ou reconhecer o aroma dos grãos de café. Perdera totalmente a capacidade de esboçar sorrisos ou de chorar quando estivesse magoada, vivendo sem objetivos ou razões. O gordo Orcílio, que estranhamente não envelhecia, tornou a encontrá-la diversas vezes e, um dia, falsamente sensibilizado por sua situação, ofereceu-lhe sua alma de volta, mas ela não demonstrou interesse. Nenhuma alma vendida poderia ser devolvida, era uma regra da vida. E Orcílio adorava confirmá-la.



Publicado por Diego Spagnuelo às 13:12
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Quarta-feira, Julho 15, 2009



A sombra de Valuno: O asteroide

Quando despertou, Ocsion viu um belíssimo exemplar de "Morpho aega" pousado sobre seu joelho esquerdo. As propriedades biológicas do inseto alado tinham sido transmitidas a ele. Conseguiu respirar o oxigênio presente no ar e a pressão atmosférica já não lhe perturbou. Levantou-se um tanto consternado e olhou em volta. Estava a alguns passos de sua nave. Com alguma dificuldade caminhou até ela e chorou. Nas mãos trazia a missão de deter a ira de um asteroide que atingiria seu planeta, mas falhara. Na parte traseira da nave, o mecanismo que desviaria a rota do imenso fragmento sólido ainda funcionava, mas para nada servia. A imagem de Valuno em chamas ressurgiu em sua mente. Apenas ele havia restado. Devia estar grato à vida por não ter morrido durante a tempestade cósmica que tivera tirado sua nave da rota programada, e também por ter sido salvo quando de sua chegada à Terra, mas sentia-se derrotado. Apanhou um pequeno objeto metálico e o apontou para sua nave. Enquanto caminhava sem destino, perdendo-se em meio ao descampado, seu reluzente transporte espacial foi se tornando transparente, desaparecendo por completo em poucos instantes.



Publicado por Diego Spagnuelo às 23:08
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Terça-feira, Julho 14, 2009



Desencontros

Adalgisa escondia do marido o amante Eduardo. O marido de Adalgisa, Marcos, escondia da esposa o amante Gabriel. Gabriel escondia do namorado Eduardo o caso com Marcos. Eduardo escondia do namorado Gabriel o caso com Adalgisa. Na noite passada Marcos disse à esposa que precisava ficar até às vinte horas no trabalho para uma reunião. Adalgisa beijou o marido e disse que aproveitaria para ir com a mãe ao museu. Ambos mentiram. Marcos encontraria Gabriel em frente às Livrarias Machado. Adalgisa encontraria Eduardo no estacionamento da Doceria Santa Edwiges. Seria outro dia comum: no início da noite, todos retornariam para casa exalando o adocicado perfume da luxúria. Em uma semana, porém, aquela emaranhada teia de traições se desfaria. Dois dos envolvidos pediriam o fim dos seus relacionamentos, um deles acabaria com a própria vida e o outro passaria a ingerir medicamentos fortíssimos para o controle da depressão.



Publicado por Diego Spagnuelo às 16:57
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Segunda-feira, Julho 13, 2009



A sombra de Valuno: Tempestade cósmica

Há dez anos um grave acidente espacial fez com que uma nave valunita saísse de sua rota programada e adentrasse a Via Láctea, aterrissando sobre um imenso descampado interiorano na Terra. Durante o evento nenhuma luz foi vista, nenhum ruído foi ouvido e nenhum tremor foi detectado. A nave simplesmente pousara na superfície terrestre, trazendo consigo a prova incontestável da vida em outros planetas: o tripulante Ocsion. A aparência geral e a estatura do extraterrestre assemelhavam-se as de um ser humano adulto. A pele, no entanto, era vítrea, e os olhos eram grandes e negros. Estava vivo graças ao controlador automático de sua nave, mas ainda enfrentava grande perigo. Em poucos minutos, caso não conseguisse adaptar seu organismo às condições da Terra, entraria em choque e morreria. Podia imitar a codificação biológica de qualquer criatura no universo, necessitando para tanto o contato físico com esta. Não conseguia se mover, porém. Sentia-se fraco. Seus pulmões começavam a parar e a pressão atmosférica estava lhe perturbando imensamente. Seus olhos se fechavam e seu corpo descaía. Ocsion definhava pouco a pouco. Em meio a dores e delírios, viu o planeta Valuno - o seu planeta - esvair-se em chamas e soube que tinha fracassado em sua missão. De repente, um sopro frio lhe entrou pelas vias respiratórias e seu corpo começou e retomar a vitalidade. Não sabia como, mas havia sido salvo.



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:02
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