Terça-feira, Junho 30, 2009



Um caso sem qualquer importância

Licinha Araújo era riquíssima, lindíssima e inquieta. Um dia inventou que desejava lançar uma revista de arte e achou isso muito honroso. Nunca havia pensado em trabalhar, mas tinha ouvido nas badaladas rodas sociais que trabalhar era chique, e em duas semanas estava pedindo ao pai que lhe financiasse aquele capricho. O velho nunca havia se divertido tanto com uma notícia. Enquanto a fortuna da família existisse, disse gargalhando, nenhum de seus filhos necessitaria se humilhar trabalhando. Acontecia, porém, que a mimadíssima Licinha tinha decidido se arriscar no mundo e queria experimentar o doce sabor do cansaço e da ansiedade aos fins de semana e, mesmo que o pai não lhe desse o dinheiro que pedia, não desistiria. Orgulhoso como era, o velho manteve sua palavra: seus filhos jamais trabalhariam. A moça ficou furiosa e no mesmo dia vendeu algumas roupas, dois ou três pares de sapato, e iniciou os processos legais para a abertura de sua editora. Vendeu muitas outras coisas, de pinturas a azulejos, lançou a esquisitíssima e oca revista Naïf e, em semanas, despertou a atenção da mídia. Depois das entrevistas que concedeu às emissoras de televisão e às rádios, a jovem Araújo tornou-se um fenômeno de vendas. Seu pai que era um dos três homens mais ricos do país, perdeu tudo num cassino em Las Vegas e hoje passa as tardes comendo torradas moles e lendo as excentricidades da filha.



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:30
Deixe seu comentário



Sábado, Junho 27, 2009



Introspecção

Aldo Figueiredo, o âncora do Noticiário da Noite, era um homem comum por trás das câmeras. Comum como qualquer outro homem que tinha uma vida estável e bem arranjada. Gostava de acordar cedo todos os dias e de abrir as janelas da casa para deixar a luz entrar. Frequentava teatros, cinemas e restaurantes finos sempre que tinha vontade. Lia bons livros e revistas aos fins de semana. Gastava consideravelmente pouco com luxos e investia em ações. Um dia, quando seu casamento terminou, perguntou magoado à mulher que até então era sua esposa, o que havia de errado com ele. "Tudo em você é absolutamente comum." - ela disse. Aquelas palavras pareceram vazias no começo, mas logo fizeram sentido para ele. Aldo era mesmo um homem de atitudes comuns. No dia seguinte, não foi à emissora apresentar o jornal. Ficou em casa à companhia de si mesmo, em silêncio, pensando. Telefonou para o trabalho e mentiu que precisava se ausentar por alguns dias para a realização de um tratamento médico. Os dias foram se passando gentilmente. O jornalista retornou ao Noticiário da Noite seguido pelos olhares curiosos dos colegas de estúdio. Estava misteriosamente mais bonito e corado, caminhava seguro de si. Já não lembrava aquele homem enfadonho que outrora assombrava os bastidores da emissora com ações previsíveis e postura comedida. Parecia outro indivíduo. Quando o noticiário entrou no ar àquela noite, porém, todo o encanto se quebrou: o homem permaneceu três minutos em silêncio e logo depois começou a chorar, soluçando desesperadamente e pedindo desculpas aos espectadores. Ao que parecia, a mudança havia sido apenas externa. Mas o show devia continuar. No mesmo dia o rapaz do tempo, Vitório Junqueira, foi nomeado o novo âncora. E tudo voltou ao normal.



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:22
Deixe seu comentário



Quinta-feira, Junho 11, 2009



Azdro e a mariposa: Equações

Shantara havia escrito diversas obras discorrendo sobre o surgimento das estrelas e dos planetas e detalhado, em estudos, cálculos físicos de grandioso valor científico, mas dizia não perceber perfeitamente algumas sutilezas humanas. Ao amigo Azdro confidenciava que não compreendia por que alguns humanos choravam quando seus filhos nasciam e tantos outros sorriam ao fim de uma batalha, em que milhares haviam morrido. Era infinitamente sensível e inteligente, capaz de manifestar os mais legítimos sentimentos como a amizade e o amor; quiçá virtuosa demais para entender com perfeição outras tantas relações. O príncipe acreditava, porém, que a mariposa-gigante era uma criatura completa, capaz de entender desde as mais inalcançáveis deduções matemáticas até os menos expressivos gestos de emoção. Acontecia que era superior a qualquer outro indivíduo e estava muito a frente de seu tempo, sendo interpretada erroneamente. O próprio Azdro, certa vez, deu-se conta que não compreendia os motivos que levavam alguém a matar pelo poder e os sentimentos divinais que faziam uma mulher abdicar de sua própria vida para resguardar a do filho. E concluíra que o que nele eram limitações do saber, em Shantara eram convites à reflexão. Aquela bela mariposa de asas rubras seria lembrada no futuro por sua sapiência e pela capacidade de entender os seres humanos e de refletir como ninguém sobre eles. Até lá, muitas páginas seriam escritas e outras mariposas menos preciosas nasceriam.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:53
Deixe seu comentário


Arquivos