|

Domingo, Maio 31, 2009
O pêndulo
Há dois dias a velha Zora resolveu confessar seus crimes e se entregar às autoridades. Na juventude tivera se dedicado às práticas do hipnotismo e descoberto um dom. Com seu pêndulo reluzente arrancava verdades de quem julgasse vantajoso, obrigando a vítima eleita a contar suas mais ocultas intimidades e revelar seus segredos. Depois cobrava altíssimos valores para manter as confissões roubadas em completo sigilo, oferecendo apenas a própria palavra como garantia do "negócio". Ainda assim, raros eram os que se negavam a pagar o preço de seu silêncio. Cargos políticos, tradições familiares e reputações estavam em jogo. Ninguém desejava arriscar, Zora sabia. Algumas semanas atrás, porém, um fato fê-la refletir sobre seu passado: o ex-prefeito da cidade, hipnotizado e chantageado há sete anos, era um homem feliz, benquisto e respeitado, enquanto ela própria não passava de uma velha obsecada pela vida alheia, que tinha o dinheiro como um pretexto de sua perversão. Não havia construído coisas com sua fortuna. Não havia dado qualquer serventia àquele dinheiro. Mais vantajoso teria sido gritar a quem desejasse ouvir os inúmeros segredos de suas vítimas e oferecer ao mundo menos mentiras. Todo esse tempo fora ela a chantageada. Por esse motivo tivera resolvido confessar seus crimes: de certa forma sentia-se agredida; friamente seduzida e enganada por si mesma.
Publicado
por
Diego Spagnuelo às
19:25
Deixe seu
comentário
Sábado, Maio 30, 2009
A maldição sem cor
O grão-vizir Mahib era um indivíduo repleto de mistérios. Por um motivo desconhecido, apenas se apresentava publicamente envolto em vestes que o cobriam por inteiro e evitava contatos físicos. Dizia-se que jamais fora visto com o corpo ou o rosto à mostra, que não permitia a presença de criados em seus aposentos íntimos e que de maneira alguma realizava refeições à luz do dia. Apesar disso, era justo e honrado como nenhum outro homem. Certa vez um baile de máscaras foi organizado em sua homenagem e toda gente estava convidada. Na noite marcada, com toda sua pompa e distinção, o grão-vizir foi o primeiro a chegar. Vestia um traje riquíssimo formado por diversas camadas de tecido e adornado por pedras preciosas que o cobriam por completo. A máscara que usava havia sido esculpida em prata e refletia com delicadeza o azulado fulgor noturno que se espalhava pelo deslumbrante salão de festas do reino. Aos poucos os demais convidados em seus respectivos trajes foram chegando e o baile se iniciou. Havia muitas especiarias e a música era a melhor de toda a Arábia. Tudo parecia correr bem. De repente, todas as cortinas do ambiente foram cerradas e, não fosse a luz de um pequeno castiçal, o baile se vestiria na mais plena escuridão. Alguns dos presentes, então, se aproximaram do grão-vizir e o imobilizaram com violência. "Arranquem as vestes desta aberração!" - gritou uma voz masculina dispersa entre a multidão. Como todos os convidados do baile estavam mascarados, não seria possível apontar os responsáveis por aquela ousadia. E como os próprios guardas de Mahib estavam do lado dos curiosos, nada seria feito para impedir sua humilhação. O homem se retorcia e gritava inutilmente enquanto boa parte dos presentes exigia seu desnudamento. Alguns eram contra aquele ato de crueldade e pareciam não saber que o baile tivera sido organizado com aquele propósito, mas não puderam deixar o salão porque as portas estavam todas trancadas. Em meio a desordem, um ruído seco ecoou pelo ambiente. As vestes do grão-vizir tinham sido rasgadas. Diante dos olhos famintos e sedentos dos que ali estavam, a revelação tivera sido feita: embora não parecesse crível, aquele nobre homem era transparente como o ar, invisível como a solidão. Nem seus olhos, nem seus braços e nem seu peito puderam ser vistos. Naquele momento nenhuma palavra ousou ser dita. Nu ao centro do salão, Mahib observou languidamente os presentes e o único que fez foi pedir que o deixassem só. Por mais amaldiçoado que fosse, ainda lhe restava algum amor-próprio.
Publicado
por
Diego Spagnuelo às
23:07
Deixe seu
comentário
Domingo, Maio 24, 2009
O mercador de pérolas
Murilo percebeu pela porta envidraçada do restaurante uma beleza incomum na chuva que começava a cair, mas nada comentou com o colega Tito ou com os industriais espanhóis. Era impressão sua, ele sabia, mas as nuvens carregadas que enegreciam os céus de Madri naquele momento pareciam chorar pérolas, que caíam lindamente e saltitavam silenciosas pelo chão. Como aquele era um jantar de negócios, julgou inadequado dar importância aos delírios de sua imaginação e permaneceu em silêncio. Limitou-se a lembrar os olhos também perolados de sua amada Lucía e os momentos esplêndidos vividos a seu lado. Há dois dias tivera pedido sua mão em casamento, e ela aceitara. A aproximadamente onze mil e quatrocentos quilômetros dali, a devotada Valentina colocava no bolso da camisa xadrez do marido um pequeno envelope perfumado. Algumas horas atrás recebera do médico a confirmação de sua gravidez. Desde então seus olhos brilhavam como duas zircônias lapidadas, sorrindo docemente. Embora Murilo não falasse em filhos, ela acreditava que ficaria encantado ao saber da criança que esperavam. "Já não podemos continuar casados, Valentina. Conheci uma mulher numa de minhas viagens a trabalho, apaixonamo-nos e vamos construir uma vida juntos. Está tudo acabado entre nós." - foi, porém, o que ele lhe disse quando regressou de Madri. A mulher fez apenas deslizar sobre o sofá da sala e chorar com o rosto abaixado. Murilo retornaria à Espanha ainda naquele dia. Subira até o segundo andar da casa para apanhar algumas roupas e encontrara o pequeno envelope perfumado escondido no bolso de sua camisa xadrez. "Quando, por Deus, iria me contar que está esperando um filho meu?" - bradou ainda com o envelope e os exames da esposa em mãos. Ela nada respondeu, apenas levantou a cabeça e continuou chorando. De seus olhos brotavam pérolas, que se derramavam sobre as maçãs do rosto e os lábios. Mas aquilo não passava de outro delírio de imaginação.
Publicado
por
Diego Spagnuelo às
16:56
Deixe seu
comentário
Arquivos

|