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Domingo, Abril 26, 2009
Sob o mesmo teto
Era no porão da casa que as coisas iam parar quando perdiam suas qualidades emocionais. Lá as coisas fugiam da vista diária e pareciam esquecidas para sempre, mortas sem ter morrido. Ocasionalmente Orlando - o dono do porão - refletia e julgava mais adequado desfazer-se definitivamente de alguns dos objetos-cadáveres que jaziam sob as tábuas do assoalho da casa para ganhar algum espaço, mas logo mudava de ideia. Aquele ambiente era uma espécie de arquivo oculto: existia, mas não se fazia ver, e guardava registros de épocas passadas prontos para ressurgir caso fosse necessário. O homem passava dias sem querer lembrar a existência daquele pequeno antro de mágoas, mas tornava a assumi-lo quando precisava livrar-se de algum outro objeto. Fora assim com o vestido negro da esposa falecida e com a caixa de pedras preciosas do avô repressor. Também ocorrera coisa semelhante com a mobília da sala, que deixando de ser elegante, passara a dividir espaço com os outros mortos do porão. Embalagens, lâmpadas queimadas, sapatos, livros, casacos sujos, joias: tudo que já não tivesse serventia afetiva era jogado lá. Os rancores que banhavam o passado não deviam ficar à mostra. Esconder aqueles objetos tão inquietantes era uma maneira de não ouvir o que tinham a dizer, ou simplesmente de não ouvir seu silêncio. Mas, haveria de chegar o dia em que todos aqueles cadáveres retornariam à vida, despertando inesperadamente em busca de luz. Neste dia nenhuma atitude seria boa o suficiente para acalmar sua fome de vingança e Orlando estaria estregue ao poder destruidor de suas próprias lembranças. Teria de enfrentar a luminária ensaguentada usada para controlar a violência do pai, a delicada caixinha de música e a carta de amor devolvidas a ele pela primeira namorada, a cadeira de madeira que espetava as costas e também o retrato emoldurado do irmão suicida.
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por
Diego Spagnuelo às
14:22
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Quinta-feira, Abril 23, 2009
O mensageiro das coisas vindouras
Um dia, observando a chuva pela janela da cozinha, Tomás foi surpreendido por uma pequena criatura brilhante que lhe suplicava a atenção através da vidraça. O pequeno ser, ele logo constatou, era um homenzinho muito bem trajado e esverdeado cuja pele irradiava uma luz estranhíssima. Seu nome era Heitor e afirmava ser o "mensageiro das coisas vindouras". Molhado e trêmulo sobre o peitoril da janela, perguntou gentilmente ao dono da casa se podia lhe falar. Mudo e nitidamente assombrado o homem o apanhou nas mãos e o levou para dentro. À mesa da cozinha, equilibrando-se sobre um caqui maduro, o homenzinho tirou o paletó úmido do corpo, colocou-o aos próprios pés e iniciou uma fala nitidamente embargada. Confuso diante da visita tão incomum daquela criatura, Tomás ouvia estático o que o pequeno homem lhe dizia. "Rogo que faças caso do que te digo. Minhas palavras são puras como um rubi bruto e repletas de intenções boas: se apreciares a tua vida não te exponhas outra vez ao prateado noturno e sob a presença do sol não dês ouvidos a moças de lábios rubros. Corres perigo!" - a fala ecoou modesta pelo ambiente. Arfante e choroso, Heitor apertou o peito com as mãozinhas e olhou para a imensa janela da cozinha desolado. Do bolso da calça tirara um lenço para secar as lágrimas. Era chegada a hora de partir. "A que tipo de perigo estarei me sujeitando se decidir não lhe fazer caso?" - inquiriu-lhe Tomás. "A resposta está em ti. A única garantia que tens de que o que te falo é verdadeiro é minha própria palavra, assim mesmo mostras-te intrigado. No fundo sabes que o tipo ou o tamanho do perigo não importam, porque estimas verdadeiramente tua vida. Ouve a mim, mas ouve principalmente a ti. Não hás de te arrepender."
Publicado
por
Diego Spagnuelo às
21:47
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