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Segunda-feira, Março 30, 2009
Sete: Vaidade desvelada
A imponente casa da Rua Comandante Alfredo Matias poucas vezes esteve com as portas e janelas fechadas. Dentro dela vivia Enrico, um homem mergulhado em si mesmo que, para enaltecer os enlevos de sua beleza, passara a viver à companhia da vista alheia. Passava horas diante do imenso espelho do quarto, contemplando o lindo rosto que tinha e penteando os sempre negros e brilhantes cabelos. Através das janelas do casarão, todos os dias, dezenas de pessoas buscavam alguma cortesia lúbrica, parando para observar o homem em sua intimidade, naquilo que se podia considerar um singelo gesto de admiração. Quando Enrico se banhava, acariciando suavemente cada trecho de pele de seu corpo, cobria as janelas com um tecido fino e transparente, apenas para evitar incômodos com os falsos moralistas e afastar os muito entusiasmados. Exausto, ao fim das tardes, o homem se estirava nu sobre o sofá da sala e dirigia sorrisos maliciosos e piscadelas amistosas aos seus admiradores, entregando sem receios, a estranhos, as extravagâncias de sua mais crua e delinquente vaidade.
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Diego Spagnuelo às
21:21
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Domingo, Março 22, 2009
Sete: O baile da cólera
O homem foi adentrando o salão com os olhos cinzentos banhados num rubor demoníaco e, possuído por um sentimento destruidor, começou a falar aos convidados da festa: "Enquanto perco horas e horas de meu tempo precioso mantendo esta cidade nos eixos, garantindo a qualidade de suas vidas e calculando as despesas com a saúde e a educação, vocês, corja inútil, regozijam-se até desmaiar. Por minha dedicação peço tão pouco. Apenas que me respeitem como trabalhador honroso e que reconheçam minha honestidade rara comparecendo às reuniões públicas semanais. Mas não há viva alma que se importe com os políticos decentes. Querem saber apenas dos larápios de boa aparência e dos abobalhados que se comunicam em linguagem grosseira. São todos vocês um amontoado de imprestáveis: isso sim! Bando de calhordas!" Por cinco minutos um silêncio cortante foi mantido. Depois disso o prefeito completou seu discurso: "Eu renuncio."
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Diego Spagnuelo às
18:19
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Sexta-feira, Março 20, 2009
Feito com amor
A cozinheira Zelina costuma preparar uma sopa de grandiosa fama em seu restaurante. Numa caçarola coloca cenouras, batatas, tomates, folhas de couve, salsa picada, cebola e sal. Ferve os ingredientes em água puríssima. Quando as batatas e as cenouras começam a amolecer, adiciona cubos de carne e pimentões verdes em tiras. Aguarda a carne cozinhar e adiciona o toque final: seis gramas de ouro em pó, peneirado quatro vezes e perfumado com açafrão. O preço da sopa não costuma aparecer no cardápio.
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Diego Spagnuelo às
23:59
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Quinta-feira, Março 19, 2009
Humberto
No aniversário de oitenta anos da mãe, Humberto descobriu um prazer oculto em si. Durante a festa, quando não havia ninguém por perto, esburacou o delicioso bolo de frutas da aniversariante e nas pequenas cavidades produzidas com o auxílio de uma faca sem ponta, enfiou os besouros secos da coleção da família e os cobriu com glacê. Numa outra ocasião, pingou gotas de vinagre no colírio da prima e assistiu-a chorar de dor através de uma fresta de porta, sorrindo tão inocentemente quanto uma criança ao descobrir o próprio umbigo. Embora seu sadismo lhe proporcionasse momentos de felicidade verdadeira - e suas vítimas, ingênuas, nunca descobrissem seu envolvimento naqueles pequenos e suspeitos desastres cotidianos -, com o tempo, ele próprio percebeu, aquilo fora se descontrolando e passara a lhe dominar. Não era às pessoas que fazia mal, era a si próprio, concluíra. Destruía a alegria alheia para não se deparar com a tristeza que carregava adormecida na alma. Mas, estava disposto a mudar. Num dia de verão resolveu buscar ajuda especializada. Foi a um psiquiatra e iniciou um tratamento para livrar-se definitivamente dos desejos malignos que o assombravam. Não obteve, porém, qualquer resultado. Na sexta consulta matou o médico que o atendia apenas para vê-lo dar seus últimos suspiros, umedecido pelo próprio sangue.
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23:51
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Sábado, Março 07, 2009
Azdro e a mariposa: O irmão do rei
Um dia, para assombro geral, o irmão mais velho do rei de Rubília, Cadmino, retornou ao reino e reclamou a coroa. Na sucessão, ele deveria se tornar o rei. Isso se não tivesse desaparecido na véspera da coroação, o que tivera obrigado o segundo filho mais velho da família a assumir o poder. Acreditava-se que Cadmino tivera fugido por ter-se considerado incapaz de arcar com as obrigações e responsabilidades do trono. Trinta anos haviam se passado desde então. Ao ver-se diante do irmão desaparecido, o rei ordenou que um banquete em sua recepção fosse preparado e que os jardins do palácio fossem reservados para uma conversa familiar. Após tanto tempo, Cadmino parecia outra pessoa. Estava frio e distante, e demonstrava esquecimento sobre diversos fatos do passado. Quando uma tempestade escureceu o céu de Rubília, o irmão do rei contou que regressara disposto a assumir a coroa e a recuperar todo o tempo perdido. Surpreso com a revelação de Cadmino, o rei refletiu por dias e concluiu que para manter o seu reino livre de injustiças o melhor era entregar o trono ao irmão, que o tinha por direito. Apesar disso, seus súditos não compreenderam a necessidade daquele reparo monárquico, uma vez que Rubília estava sendo impecavelmente governada. Shantara, a mariposa pensante, passou a conclamar pelas ruas a permanência do rei coroado sem esconder a antipatia nutrida por Cadmino. Nada, porém, fez com que o rei mudasse de ideia. Então, no dia da coroação, o príncipe Azdro percebeu algo de estranho no homem que em poucos momentos tornar-se-ia representante daquele reino: ele era destro, mas seu tio, todos sabiam, era canhoto. O impostor foi desmascarado no mesmo momento. Mais tarde, através de uma série de experimentos e análises, Shantara concluiu que o homem fazia uso de uma poção metamorfoseadora capaz de reproduzir com perfeição a fisionomia alheia e que, em algumas horas, tornaria a se apresentar sob sua aparência original. Nem tudo, entretanto, pôde ser resolvido. Por ironia do destino o falso irmão do rei escapou, e sua identidade se tornou um grandioso mistério.
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Diego Spagnuelo às
23:20
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Sexta-feira, Março 06, 2009
Sete: Cântico à ociosidade
A mulher vivia a queixar-se da dureza da vida, da atribulação cotidiana, mas nunca ousara dedicar-se a um ofício. Sustentada pelo marido Onofre, Carolina não precisava macular sua bela face com incômodos da vida comum. Era uma mulher que passava os dias a se refestelar sobre os sofás e as camas da casa, e a se enovelar nas sedas e nos veludos das colchas e cortinas. Embriagada pelo perfume selvagem de seu amante (um menino de vinte e um anos), costumava amarrotar dúzias e dúzias de lençóis, entregando-se ardentemente aos intensos e viris delírios do rapaz. Quando a tarde estava por terminar, Carolina supervisionava os empregados na reordenação da casa, antes do marido retornar do trabalho, e evitava comentar a eles sobre seu dia. Como eram extremamente profissionais e estavam habituados com o cotidiano voluptuoso da mulher, jamais deixavam escapar qualquer palavra a respeito. No início o rapaz que proporcionava à Carolina manhãs e tardes inenarráveis, o jovem Inácio, filho do jardineiro Elias, cobrava por seus serviços. Com o tempo, porém, a relação profissional estabelecida entre eles foi sendo deixada de lado. Por esse motivo o menino tivera conquistado a simpatia daquela mulher, que apesar de tudo, não tinha maldades na alma: pensava que Onofre devia pagar apenas o justo para tê-la a seu lado, e nenhum centavo a mais. Quando o marido chegava do trabalho ela ainda estava deitada, e assim ficava até a hora do jantar, quando descia as escadas do casarão trajando a camisola vermelha de cetim presenteada pelo amante e comia com satisfação.
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Diego Spagnuelo às
23:48
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Domingo, Março 01, 2009
Azdro e a mariposa: O presente de Garmeno
O príncipe Azdro, segundo filho do rei de Rubília, ao completar quinze anos recebeu como presente de seu tio-avô Garmeno, uma preciosíssima mariposa-gigante que, além de apresentar asas da cor do sangue capazes de hipnotizar, podia pensar. Um dia ela própria revelou ao príncipe que se chamava Shantara e que, modestamente, desejava ofertar a ele sua amizade e lealdade. Lisonjeado com a pureza do gesto, o menino reverenciou a criatura e lhe ofereceu o mesmo em troca. Tornaram-se os amigos mais devotados de que se teve notícia. Enquanto Shantara, com sua sapiência fora do comum, documentava estupendas descobertas científicas, Azdro colhia figos maduros e os levava para ela. Quando o príncipe precisou viajar longas distâncias, até o reino de Felpitso, foi nas costas de Shantara que ele montou. Aprenderam que a amizade verdadeira consistia, principalmente, em oferecer a mão ao outro. Ao completar vinte e cinco anos, o príncipe fez questão de brindar o lindo sentimento que nutria pela amiga mariposa ao lado do tio-avô Garmeno. Era o momento de agradecer por aquele presente que o tivera feito amadurecer e permitido compreender melhor os mistérios da vida. Shantara, como era de se esperar, parou algumas vezes para registrar dados sobre as plantas e flores encontradas no percurso da viagem, e Azdro lhe buscou os figos mais bonitos. Ao vê-los, o velho Garmeno morreu doce e serenamente. Por certo realizado.
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Diego Spagnuelo às
22:18
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