Sábado, Fevereiro 21, 2009



O beijo de despedida

Os cristais e as louças na estante da cozinha tilintavam suavemente, embalados pelo chão da casa que tremia com discrição e pelos ares que começavam a se adensar de maneira sinistra. À mesa da sala, Miguel concluía um relatório longo e confuso. Aguardava com devoção a chegada da sua Mulher de Negro. Hipnotizado diante da tela do computador ele demorou a perceber a campainha soar oportunamente. Do lado de fora da casa estava aquela que tinha o poder de trazer para suas tardes insípidas e apáticas, o sabor embriagante da vida. Estranhamente, a Mulher de Negro, cujos lábios eram vermelhos como rubi lapidado, jamais falava coisa alguma, e nunca levantava os olhos mas, ainda assim, despertava grande afeição no rapaz. Seus gestos misteriosos lhe fascinavam grandiosamente e o seu perfume nunca o cansava. Tudo ficava melhor e mais suave quando ela vinha lhe visitar. Naquele dia a Mulher de Negro, talvez sem escolhas, dirigiu-lhe a palavra pela primeira vez. "O seu dia chegou, meu bom amigo." - disse-lhe em tom entristecido. De pronto ele não quis compreender, embora soubesse que mais cedo ou mais tarde aquilo aconteceria, pois não havia como escapar do destino. Tivera vivido momentos repletos de pureza e amizade ao lado daquela mulher que nunca antes houvera esboçado qualquer tipo de emoção. Diferentemente dos que viviam ao redor dele, na família e no trabalho, a Mulher de Negro sabia ouvir e respeitar. Não era de sua natureza agir com egoísmo ou impaciência. Com toda a sua delicadeza ela sabia que as pessoas precisavam de tempo para se entenderem e se conformarem de si próprias. Agora que estava diante de Miguel, humana como qualquer outra mulher, e esplêndida como nunca, nada mais podia ser feito. Aquele era o fim de um amor jamais começado. Com o rosto manchado de lágrimas, ela voltou seus olhos castanhos para o rapaz e o beijou na boca. Ninguém jamais saberia, mas naquele momento a Mulher de Negro havia quebrado todos os protocolos.



Publicado por Diego Spagnuelo às 15:14
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Domingo, Fevereiro 15, 2009



A criatura que andava sob o luar crescente

Às luas crescentes era mais conveniente manter os pés dentro de casa. Atrás das vidraças das residências de todos os tipos, numa mistura de medo e lascívia, as pessoas assistiam mudas ao desfile da criatura pelas ruas. Sua pele muito linda e acetinada convidava os olhos e se cobria e descobria envolta em rasgos de pano negro e longo. A criatura andrógina estava fadada à maldição da monstruosidade porque acreditava na superstição tola que lhe impingiam e todos os demais estavam fadados ao crime da hipocrisia porque eram supersticiosos sem, na realidade, ser.



Publicado por Diego Spagnuelo às 14:53
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