Sábado, Janeiro 31, 2009



A ver navios

Esquecida como era, Matilda desceu a trêmula rampa do transatlântico a fim de apanhar uma maleta de couro vermelha deixada inadvertidamente aos pés da irmã Carmem. Prolongou-se demais no falatório. Ao despedir-se da família pela terceira vez, percebeu que o imenso navio já tinha partido, e que, sem cerimônias, dançava para ela o seu pomposo balé aquático.



Publicado por Diego Spagnuelo às 23:38
Deixe seu comentário



Sexta-feira, Janeiro 30, 2009



Segredos de família

Estava escrito no testamento que os bens do velho Vicentino Branco ficariam para a cozinheira Dora, a moça que há cinco anos trabalhava no casarão da família e que por todos, exceto pelo morto, era maltratada. Apanhados de surpresa pela decisão do patriarca falecido, filhos e netos preferiram calar-se, desejando fugir daquela situação embaraçosa com alguma dignidade. No mesmo dia reuniram-se à casa do filho mais velho a fim de decidir que atitude tomariam em relação ao tesouro recém-perdido. Devia haver algum meio legal de invalidar o documento e desfazer aquela loucura toda, pensaram. Uma simples serviçal não podia lhes tomar o que era de direito. A moça que viera assistir à leitura da herança como uma curiosa qualquer, após receber a notícia de que era a única mencionada no testamento, saíra mais comentada e estimada que o "Menino com Cachimbo" de Picasso. Nem ela podia prever que o homem lhe legaria todo o seu dinheiro. E, mesmo que sem qualquer maledicência inicial, assim que ficou conhecendo as reais dimensões da fortuna do velho Vicentino, começou a imaginar as possibilidades de vingança que aquela inesperada ascensão social proporcionavam. Quem daquela família ordinária lhe tornaria a agredir com grosserias? Quem teria a coragem de lhe continuar negando um simples copo d'água? Quem lhe ousaria levantar a voz outra vez? Para Dora as coisas tinham mudado muito. A criança que esperava no ventre, inclusive, poderia ser descartada. Agora que a fortuna da família Branco era dela, aquele pequeno herdeiro já não tinha qualquer utilidade.



Publicado por Diego Spagnuelo às 23:22
Deixe seu comentário



Domingo, Janeiro 18, 2009



Sete: A mulher que tinha fome

Rita nunca respondera positivamente aos galanteios do carregador de mudanças Otacílio dos Reis, mas ficava desesperada quando via que estava para perder o amor do homem. Fazia parte de sua natureza querer tudo para si, engolir tudo que lhe aparecesse pela frente sem degustar coisa nenhuma. Assim fora com todos os seus namorados e pretendentes e, também, com os empregos que arranjava e com as oportunidades diversas que lhe apareciam. Mesmo que algo não lhe interessasse, julgava necessário manter a coisa sob seu domínio, a impedir que outros o fizessem. Otacílio era um indivíduo bom e nutria por Rita os melhores sentimentos. Para ela, porém, o homem não passava de um "sem posses" bem-apessoado. E parecia-lhe mais razoável fazer descaso do amor que ele lhe sentia, que assinar sua carta da alforria e permitir-lhe a felicidade.



Publicado por Diego Spagnuelo às 14:52
Deixe seu comentário



Quarta-feira, Janeiro 14, 2009



Beleza aniquilada

Para conservar intocada a juventude que tinha, Beatriz fazia uso de um pó prateado misterioso encontrado nas asas de mariposas raríssimas, capaz de assegurar a beleza infinita da pele e a vitalidade dos órgãos humanos. Todas as noites, num misto de delírio e realidade, a moça se arrastava para o interior da mata que ladeava sua casa, escolhia as mariposas mais vistosas e as matava para a colheita do seu elixir da juventude eterna. Já não podia viver sem aquele pó diabólico, ela sabia, mas pouco lhe importava se para ter-se sempre jovem era necessário mergulhar em vícios. As mariposas, sempre tão generosas na oferta da beleza insuperável, porém, um dia começaram a cair em número. Numa busca insaciável pela perfeição, Beatriz foi apanhando tantas mariposas quanto pôde sem perceber que em pouco tempo provocaria a extinção daquela espécie rara. Quando em poucos meses já nenhuma mariposa restava, as coisas pareceram se acertar. Aquelas lindas criaturas de asas prateadas tinham desaparecido, mas carregavam consigo a juventude de Beatriz.



Publicado por Diego Spagnuelo às 17:53
Deixe seu comentário



Domingo, Janeiro 11, 2009



Aos porcos o que é dos porcos

A despeito da incontestável senilidade recaída sobre a cara e o corpo, a mulher que morava no número mil e treze insistia em agir como criança. Era impertinente e manhosa e se deliciava fazendo parecer que os que estivessem a sua volta eram os verdadeiros imaturos. Adorava refestelar-se por aí acompanhada de gente medíocre e tola, disposta a aplaudir seus hábitos ridículos e a saciar suas loucuras infantis. Aqueles seios obtusos que tinha - seios de criatura oca e inútil - viviam à mostra em decotes constrangedores, balançando pateticamente dentro de roupas de menina menstruada. Eram, pura e simplesmente, um ardil imundo das suas insinuações repletas de ingenuidade fingida e vulgaridade. Em seus olhos opacos e amarelos era possível ver refletidos o prazer pelo ordinário, o amor pelo sujo, a predileção pelos homens brutos de braços volumosos e a credulidade de que em si residia uma beleza venusiana. Era ela uma ofensa a todas as belezas e delicadezas existentes no mundo, uma cicatriz na face da Terra. Achava-se primorosa, respeitabilíssima, uma mente pouco compreendida. Como um pássaro aprisionado, às vezes, parava para lamentos singelos, para tristezas suaves ou para renovar-se em sonos infindáveis. Antes de dormir, respirando o odor mofado de sua casa, jogava-se sobre a cama úmida e ficava pensando nos amigos que cria ter. Embora se esforçasse em ofertar seus pensamentos a alguém que não fosse ela própria, jamais tivera a capacidade de perceber a alma alheia e suas nuances num gesto singelo de empatia. Era egoísta e pretensiosa demais para isso. E diferente de outros tantos seres desgraçados que tudo maculam a seu redor, era ela uma inconsciente de sua real situação. Nunca, numa noite de insônia qualquer, chegaria à conclusão de que era um ser pavoroso. Simplesmente não lhe ocorria a hipótese de ser repugnada por alguém.



Publicado por Diego Spagnuelo às 16:22
Deixe seu comentário


Arquivos