Segunda-feira, Dezembro 22, 2008



Dolmadakia me rizi

Do primo rico, Manfredo ganhou uma viagem à Grécia. Na mala colocaria apenas o essencial, porque era muito simplório. Entre uma coisa e outra levaria algumas roupas, seus óculos para leitura e um volume sobre a culinária tradicional grega. Embora não conhecesse com aprofundamentos os sabores mediterrâneos, e não tivesse lido por completo uma única página daquele livro imponente, pretendia obter algum aprendizado durante a longa jornada aérea que o levaria até a Europa. Como nunca havia viajado de avião, tudo haveria de ser estupendo. E nem mesmo as intrigas familiares seriam capazes de destruir as belezas de sua viagem. Estava farto de dar ouvidos a rumores que diziam que o primo Carmo só lhe dava presentes para calá-lo; estava farto da gente a intrometer-se em sua vida, e a falar e a pensar por ele. Não via crime na riqueza do primo. Sua alma, talvez excessivamente pura, jamais fora capaz de enxergar malícias nele. Eram como irmãos. Manfredo sempre o defendia quando ouvia alguém comentando sobre o maldito poço de petróleo encontrado em São Inácio. Se pudesse voltaria no tempo e se recusaria a vender-lhe aquela casa velha, apenas para provar que, de uma maneira ou de outra, o primo enriqueceria. Ninguém tinha conhecimento do petróleo escondido sob o piso da cozinha daquele casarão interiorano, ele dizia. Muito menos Carmo. Os vizinhos e familiares ocasionalmente se inconformavam com a maneira ingênua com que Manfredo encarava a vida. Para eles, a fortuna conseguida por Carmo com a descoberta do poço de petróleo devia ser dividida igualmente entre os dois primos. Aquilo deixava Manfredo profundamente magoado. "Ninguém quer realmente ouvir o que penso sobre isso tudo." - queixava-se lacrimoso. "Não sou infeliz. Ganho roupas cujo preço é mais elevado que o valor da mobília de meu quarto e perfumes cujas fragrâncias jamais seria capaz de sentir por não poder comprá-los. Meu primo Carmo sempre foi obstinado e trabalhou muito para conseguir uma vida estável e decente. Cobre-me de presentes porque me tem muito apreço, porque tem o coração generoso". Em alguns dias embarcará rumo à Grécia. Da janela do avião acenará para o primo com gratidão, depois abrirá o livro de culinária grega e dormirá antes de terminar de ler qualquer página.

Em tempo: Dolmadakia me rizi é uma das tradicionais receitas da culinária grega cuja leitura Manfredo jamais conseguiu concluir. São charutos de folhas de uva recheados com arroz.



Publicado por Diego Spagnuelo às 17:59
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Sábado, Dezembro 20, 2008



Diabo a quatro

Acompanhado de meia dúzia de assistentes, o Diabo entrou afoito numa das lojas mais caras da Júlio Alcântara. Enfiado num terno Armani e altivo sobre saltos altos da Gucci, ele exigiu que as portas do estabelecimento fossem fechadas a fim de evitar que alguma criatura comum lhe maculasse a visão. Comprou mais de setenta peças e fez questão de pagar em dinheiro. Nauseava-lhe assinar cheques e encostar nos botões das máquinas de cartão de crédito.



Publicado por Diego Spagnuelo às 20:32
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Terça-feira, Dezembro 09, 2008



Os condões da feitiçaria moderna: Dinheiro e cursos de tango

No mundo mágico é comum e prevista em lei a prática da "multiplicação monetária", que consiste em transformar uma nota de cem em dezessete notas de cem, por exemplo, ou em vinte, ou em trinta, variando de acordo com as necessidades de cada um. Bruxos, ao contrário da gente sem poderes mágicos, não possuem ambições ou delírios dinheiristas. Muitos, inclusive, preferem viver uma vida modesta e até, miserável, a ter que se sujeitar às magias de enriquecimento. O que acontece é que, apesar de muito difundidos, os feitiços que fazem o dinheiro se multiplicar são demasiadamente demorados e chatos, e exigem uma grande dose de perícia dos feiticeiros, já que, nesses casos, qualquer equívoco nos procedimentos mágicos pode ser fatal. Mas seguem felizes em suas vidas: uns paupérrimos, outros muito bem abastados. A economia bruxa dos dias atuais, porém, só se enfraquece com os que ostentam grandes riquezas. Os feiticeiros com boas reservas monetárias quase sempre preferem fazer suas compras em estabelecimentos de gente não-mágica, ocasionando, todos os anos, o fechamento de inúmeros pequenos comércios voltados às artes ocultas. Afundados em dívidas, os proprietários destas pequenas lojas mágicas não veem outra saída senão declarar falência. Como as encomendas de ingredientes para feitiços são raridades nos dias de hoje, cada pedido é celebrado com fogos de artifício e banquetes, mas nenhuma grande manifestação comemorativa foi registrada desde 1985. De acordo com pesquisas, a economia dos bruxos modernos só não entrou em total colapso graças a pequenos segmentos de mercado como o imobiliário e o de cursos de culinária rápida, artesanato e tango.



Publicado por Diego Spagnuelo às 19:56
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Segunda-feira, Dezembro 08, 2008



Sete: Inveja refletida

A mulher da casa noventa e oito, que passava os dias a admirar seu reflexo no espelho, era louca. Nutria uma paixão narcísica por sua imagem e sentia inveja da pele, e dos olhos, e dos lábios vermelho-sangue, e das sobrancelhas bem desenhadas que contemplava. Amava-se, mas não tinha a consciência de que aquela que via refletida nos espelhos era ela própria. Era uma enamorada de si mesma que se abominava mortalmente, que se destruía em olhares. Desejava ter as maçãs do rosto tão rosadas e os cílios tão longos e negros como os que espiava com obsessão, amando e odiando aquelas linhas tão delicadas e naturais na mesma proporção. A mente enferma da mulher não conseguia apreender sua imagem refletida em espelhos, e o resultado disso era uma confusão psíquica das mais severas. Tinha de se tratar com remédios fortíssimos, mas não o fazia para não se assumir inferior à mulher do espelho, sempre tão saudável e bela. E nunca saía de casa, para não perdê-la de vista. E nunca recebia visitas, para não desagradá-la. E nunca deixava a paixão que sentia por ela transparecer, para não engrandecê-la.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:58
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Sábado, Dezembro 06, 2008



A morte do imortal doutor Clóvis Moura da Fonseca

Agora que o homem se encontrava deitado entre crisântemos brancos, num caixão de madeira lustrosa, sua ciência parecia mais ridícula e equivocada que nunca. Quando vivo, o doutor Clóvis Moura da Fonseca defendeu a ideia de que, através de um medicamento à base de substâncias raras e prata em pó, seria possível ludibriar os derradeiros mecanismos da morte e manter-se eternamente vivo numa outra dimensão, carregando corpo e alma. Ele próprio tinha se sujeitado ao tratamento com o medicamento, e agora estava morto, como um comum, como alguém que tivera perdido uma vida em vão dando importância a uma obsessão tola. No dia anterior, quando a empregada da casa levantou para preparar o desjejum, encontrou o cientista amolecido em frente à televisão ligada. Morrera dormindo e seu corpo não se deslocara para dimensão alguma. A esposa, quando viu o marido sem vida, sequer estremeceu. Levantou o telefone do gancho, centrada, e chamou uma amiga da família para ajudá-la a maquiar a face pálida do morto. Queria devolver a ele um pouco da dignidade perdida em anos de pesquisas desvairadas. Também escolheu a melhor roupa do homem e o vestiu. O carro funerário estava chegando; não havia mais nada a fazer.



Publicado por Diego Spagnuelo às 17:10
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