Sábado, Novembro 29, 2008



Fim do ato

Há algumas semanas Almerinda pôs na cabeça que sua casa precisava de cortinas novas. Como ela e o marido estavam fazendo economias, pensou que aquela pudesse ser a oportunidade ideal para utilizar um velho tecido azul esquecido há anos no porão e relembrar os bons tempos em que costurava. Parecia-lhe ótimo mudar a aparência da casa sem gastos. Estava entusiasmada, apanhou no porão o tecido embrulhado em papel que descansava sobre uma estante empoeirada e foi até o quarto à procura dos antigos utensílios de costura. À varanda trouxe, além do embrulho em papel pardo, agulhas, fitas para medida, linhas de costura e sua antiga tesoura. Aquele tecido azul-real era tão antigo quanto a pitangueira do quintal, mas havia de servir. Lembrava que o tinha visto desembrulhado uma única vez, na infância, quando pela fresta da porta de um dos cômodos da casa, espiou-o sendo dobrado pela avó. A mulher morreu poucos dias depois, e deixou o pacote como presente para a única filha, mas esta jamais demonstrara interesse em abri-lo. Então, como um personagem histórico aquele nobre tecido azul fora imortalizado, calado e imobilizado pelo tempo. E apesar dos anos e do terrível cheiro de mofo, o azul pareceu lindo como sempre, ou até mais. Não havia manchas ou sinais de deterioração, mas havia algo estranho. Almerinda percebeu alguns pequenos volumes no meio do bloco de tecido e pôs-se a desdobrá-lo. Havia coisas escondidas nas dobras do pano. Encontrou pertences da avó dedicados à mãe: um retrato quando jovem, um disco do compositor Henry Mancini, uma flor ressecada e desbotada e uma carta. Nela leu coisas lindas que só uma mãe poderia dizer a um filho e se entristeceu ao perceber que aquilo tudo tivera vindo à tona tarde demais. Como a mãe também tivera morrido e nenhum de seus irmãos atribuiria àqueles objetos o devido valor, Almerinda nomeou-se a legítima herdeira daquele pequeno tesouro. Chorou. As cortinas podiam esperar.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:24
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Domingo, Novembro 16, 2008



Fagia

Helena desejava com tanto desespero a vida de Modesto que por vezes seus desejos se velavam em crime. O amor que tinha por ele era um amor doentio e equivocado. Queria arrancar-lhe a alma e com ela fazer vestes para usar todos os dias, queria extirpar-lhe os sentimentos para depois engoli-los todos e evitar que desejasse outra mulher. No fundo Helena era tão criminosa e hedionda quanto uma rosa vermelha, mas mesmo ela desconhecia esse fato.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:25
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Domingo, Novembro 09, 2008



Bodas de gipso

Assim que terminou o banho, Evaristo desceu as escadas da casa para jantar com a esposa. Ouviu vozes de pessoas e risos. Pensava que a comemoração seria apenas entre eles, algo bem íntimo, mas encontrou à mesa algumas pessoas estranhas, provavelmente amigos da mulher. Ia chamá-la discretamente para perguntar sobre os convidados, mas receou criar uma situação desconfortável ante os presentes. Apenas olhou para a sua Sílvia, situada numa das extremidades da mesa, e sorriu amorosamente. Antes de sentar-se, porém, fez um cumprimento genérico e dedicou algumas palavras à mulher. Como os convidados pareciam bastante à vontade e sorriam e conversavam entre si, o homem não viu razão para maiores formalidades e se posicionou confortavelmente à outra extremidade da mesa. Sílvia estava resplandescente e feliz, ele sabia. Os olhos dela cintilavam delicados, a noite estava fresca e doce, e o jantar, delicioso. Não podia prever que estar à companhia de presentes desconhecidos em plenas bodas seria tão agradável. Estava maravilhado. Mais tarde, ao fim do jantar, subiu as escadas para apanhar o presente que havia comprado para a esposa e quando retornou, encontrou-a sozinha à mesa. "Os convidados já se foram, Sílvia?" - perguntou. A mulher pareceu confusa: "De quem você está falando? Ninguém foi convidado."



Publicado por Diego Spagnuelo às 17:38
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Sábado, Novembro 08, 2008



Vestida de noiva

Na hora marcada, a senhorita Libélula foi até a maison de madame Besouro para fazer os últimos ajustes em seu esvoaçante vestido de noiva. A cintura do traje precisara ser apertada sete vezes para se adequar ao corpo esguio de Libélula que ficava mais fino e frágil a cada dia. Refinada e discreta como era, jamais despejaria por aí as verdades sobre seu lastimável estado de saúde. Estava à beira da morte, mas parecia tão racional, centrada e elegante como sempre. Tinha tantas tarefas importantes a realizar antes do descanso eterno que simplesmente se recusava a perder tempo com desvarios e lágrimas. Em raríssimas ocasiões flagrava-se a refletir melancólica sobre seu fim ou a queixar-se da repulsiva companhia de seu ancião e deplorável noivo, o conde Gafanhoto, embora tivesse motivos de sobra para transformar sua vida num verdadeiro martírio. Seu arranjado futuro cônjuge era o culpado por seu estado de vida tão delicado. Para evitar que o velho desejasse tê-la para si, fizera uso de um óleo aparentemente inofensivo cujo efeito era reduzir drasticamente a produção do feromônio que nele despertaria desejos. A preservação de sua castidade, porém, custara-lhe caro: muito embora o óleo fosse altamente eficaz, soube-se que era na mesma proporção mortal. Provocava reações degenerativas e irreversíveis que destruíam os órgãos vorazmente. Prescrita às escuras por um porta-voz-ajudante da sinistra boticária Mariposa, a substância tornava-se venenosa se usada continuamente. Durante o letal tratamento, o organismo de Libélula fora absorvendo o óleo e começara a se petrificar, e a morrer. E apesar de não ter qualquer conhecimento aprofundado em farmacologia ou medicina, ela todos os dias percebia claros sinais da aproximação da morte. Madame Besouro, a modista, não podia entender como sua cliente mais bela tivera emagrecido tanto em tão pouco tempo e implorara para que, a todo custo evitasse perder mais peso, caso contrário casaria-se parecendo embrulhada numa horrenda lona de circo frouxa. Naquele dia, quando a viu mais magra que nunca, quase desmaiou. Caiu-se sobre uma cadeira e ainda assombrada pela imagem cadavérica de Libélula, repreendeu-a com o olhar. O casamento aconteceria em dois dias, mas Besouro temia que mais reformas precisassem ser feitas no vestido até lá. No grande dia, porém, a noiva surgiu resplandescente, ostentando uma aparência física mais sadia conseguida com sopas de espinafre e alguns cálices da mais pura geléia real. Ainda assim, a boa madame Besouro continuava sem entender o que de fato estava acontecendo com a saúde da jovem e tampouco os motivos que a levavam a prosseguir com aquele casamento. O conde Gafanhoto era um velho sórdido e torpe que carregava nas mãos a situação financeira familiar de Libélula e que conseguira sua mão em noivado graças a chantagens e jogos de poder desprezíveis. Quando a cerimônia matrimonial estava em seu auge, então, a modista e todos os convidados foram surpreendidos por um discurso revelador da esquelética nubente. As verdades sobre aquele matrimônio forjado e as circunstâncias que a levaram a ficar tão debilitada vieram à tona. Em minutos estaria morta, por isso não se importou em expor-se daquela maneira. Era a última chance que tinha para destruir a vida do asqueroso Gafanhoto. Não podia perdê-la de maneira alguma.



Publicado por Diego Spagnuelo às 14:19
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