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Sexta-feira, Outubro 24, 2008
Sete: Alma avara
Nenhuma instituição financeira era digna de sua confiança. Era certo para ele que, uma vez confiado num banco, cedo ou tarde um ordinário e asqueroso qualquer resvalaria sobre seu capital e, "sem intenções", afanaria para si uma pequena quantia, alegando cobrar taxas corriqueiras. Sua riqueza era importante demais para ser guardada num lugar tão desprotegido e criminoso quanto um banco. Era tão imensa e brilhante quanto o sol. E nem ele mesmo sabia quanto possuía. Não contava. Tinha medo do sentimento de castração que a detenção de um dado tão limitante quanto esse pudesse gerar. Sem precisões numéricas possuía uma fortuna verdadeiramente infinita, um tesouro financeiro mais valioso do que o imaginado pela mais desgraçada e ingênua criatura terrestre. Para proteger-se, começou a engolir o capital que tinha. Parecia excêntrico e assombroso, mas a verdade estava clara como diamante: depois da digestão não havia quem pudesse arrancar dele sua fortuna.
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Diego Spagnuelo às
19:06
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Sábado, Outubro 18, 2008
Quatro segundos
Uma noite, da casa humilde em que viviam, os velhos ouviram um som arranhado e agudo como o de garfos riscando vidro. Aquilo tinha se iniciado de maneira discreta e apagada e fora crescendo com o surgimento de pequenas luzes no céu. Em princípio pensaram que os sons e as luzes fossem de vaga-lumes em revoada, mas as manifestações foram crescendo numa completa incompatibilidade com a anatomia de qualquer inseto. As esferas de luz branca que deslizavam no céu ficavam cada vez maiores e mais intrigantes, e aquele perturbador som arranhado não cessava um só instante. No gesto impotente de tentar escapar daquilo que parecia ser um evento extraterreno, a mulher foi para fechar as janelas da casa e percebeu que estavam cercados. As tais luzes gritantes estavam por toda parte e tinham parado no ar, como a fitar o rancho dos velhos. De imediato os dois se ajoelharam e, religiosos como eram, iniciaram uma oração-súplica invocando os poderes altíssimos de Deus Todo-Poderoso. Em dado momento, porém, tiveram de parar. Não mais conseguiam ouvir suas próprias vozes: o som das esferas de luz era imensamente superior a qualquer coisa que já tinham ouvido em vida; invadiu toda a extensão dos cômodos de sua casa e feriu violentamente seus ouvidos. Com a audição perdida, a visão começava a falhar. Conforme a intensidade das luzes foi aumentando e entrando pelas frestas do casebre, as retinas do casal começaram a queimar. Cegos e surdos, sentiram-se desorientados. Jogaram-se ao chão e, numa demonstração de devotado amor, abraçaram-se. Quatro segundos depois o mundo havia acabado.
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Diego Spagnuelo às
15:54
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Segunda-feira, Outubro 13, 2008
Sete: O arcanjo da luxúria
Lázaro adorava espiar pelos buraquinhos das fechaduras atrás de coisas lúbricas, salivando e se contorcendo ao perceber que dentro do ambiente vigiado havia o que olhar. Também gostava de se exibir no peitoril da janela de seu apartamento, alisando os braços e as coxas que tinha, ou mostrando algum outro detalhe de sua anatomia. Gostava de ver e de ser visto, embora não apreciasse nada muito explícito ou vulgarizado. Era um escravo das coisas veladas, dos segredos noturnos, das falas sussurradas. À noite, com seu telescópio de alto alcance, ficava a ver as silhuetas anônimas das pessoas passeando pelas janelas e varandas iluminadas de suas residências por horas, imaginando como deviam ser suas faces, suas vozes, suas texturas.
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Diego Spagnuelo às
01:16
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Domingo, Outubro 12, 2008
Neurocirurgia
A sedutora e gatuna Vanessa aplicava golpes desde a mais tenra adolescência. Entrava no convívio familiar de milionários fazendo-se passar pela moça pobre e ignorante do interior que, com a cabecinha abarrotada de esperanças, sonhava com uma vida melhor para sua família. Oferecia seus serviços de governanta em troca de um dinheiro bastante modesto, que invariavelmente ia aumentando conforme a confiança estabelecida entre ela e os patrões fosse crescendo. Geralmente conquistava a estima e adquiria certa intimidade familiar em um ano e meio de convívio, mas não tinha pressa para nada. Ia se insinuando para os patrões, fazia cenas de partir o coração, fingia desmaios e sempre conseguia o que queria. O crime que praticava era um crime disfarçado, porque as circunstâncias que levavam suas vítimas a desejarem comprar para ela presentes caros, vestidos e joias, provinham do excelente trabalho doméstico que exercia. Apesar disso, a gentileza e a bondade alheias não lhe causavam qualquer comoção. Seu único objetivo na vida era ter coisas e arrancar da gente rica um pouco de seu "farto e delicioso dinheiro". Há dois anos estava trabalhando na casa do doutor Ambrósio, um velho e bem-sucedido neurocirurgião, que escondia atrás de uma discreta pintura a óleo, em seu quarto, um cofre antigo. Olhando do corredor da mansão, pelo reflexo do espelho que ficava no quarto do homem, Vanessa conseguiu em alguns meses anotar a secreta combinação que mantinha o aparato de ferro trancado. Estava tão decidida a praticar seu primeiro crime verdadeiro quanto seu rico patrão estava em fugir do país. Por certo a polícia não tardaria a procurá-lo em sua casa e tampouco a revirar os seus cômodos, e a arrombar o seu cofre, e a dentro dele encontrar a cabeça de sua amante embrulhada em celofane.
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Diego Spagnuelo às
22:30
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Quarta-feira, Outubro 01, 2008
O desejo último
Por medo da rapidez do mundo moderno, Hipólito desejava morrer lentamente. Desejava que os sofrimentos em seu leito de morte durassem anos. Queria estar preparado. Em algumas imaginações, via-se transformado em areia fina que ia sendo levada pelo vento, em outras, estava deitado sobre uma cama de lençóis alvíssimos enquanto seu corpo ia se apagando lentamente.
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Diego Spagnuelo às
12:09
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