Sexta-feira, Setembro 19, 2008



A moça desbotada

Quando as cortinas pesadas do teatro começaram a se abrir aquela noite, arrastando-se cruel e lentamente pelo piso, a mocinha que abriria o espetáculo percebeu que as coisas não seriam tão fáceis quanto imaginava. Nos ensaios realizados em casa, decorou falas e imaginou fugas elegantes para imprevistos tolos, mas tivera esquecido o essencial: não conseguia discursar em público. Há nove dias, numa ilusão sua, imaginara os traumas do passado como parte apenas do passado e sentira-se desafiada. Talvez aquele convite a tivesse feito crer que os outros a viam como uma mulher desenvolta e extrovertida, livre de fobias. Ou talvez estivesse apenas fora de si quando aceitou abrir aquele espetáculo. Dissera "sim" com a convicção de quem não podia deixar uma oportunidade como aquela escapar, e agora estava profundamente arrependida de sua atitude. Aquilo não era de maneira alguma uma oportunidade. Olhou para o público diminuída, intimidada. As centenas de criaturas impacientes sentadas nas poltronas esperavam por sua fala de abertura, ansiando pelo início da peça. Estava tão desconcertada com toda aquela situação que nem percebeu quando algo inusitado começou a acontecer. Seu vestido, até então vermelho, numa transfiguração deprimente e poética, estava mudando gradativamente de tonalidade. Em poucos minutos o que se via era um cinza-pálido horrendo que se desfazia num matiz jamais visto, como se tudo nela estivesse morrendo. Pouco depois foi a vez de sua pele sofrer uma alteração tonal inexplicável, depois seus olhos, seus cabelos, seus dentes, suas unhas e por último sua alma.



Publicado por Diego Spagnuelo às 23:33
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Terça-feira, Setembro 09, 2008



Os sapatinhos da moda que não eram feitos para se calçar

Margarida ouviu dizer que era moda usar sapatinhos de verniz. Deu uma vida e meia para conseguir comprar o par mais barato que encontrou numa loja, ficando com um pequeno, e elegante, furo na conta bancária. Acreditava que no fundo a coisa toda devesse valer a pena, só não conseguia compreender por que aqueles malditos sapatinhos doíam tanto em seus pés de moça simples. Não demorou muito e percebeu que não eram bons para ela. Que não lha deixavam contente, nem confortável, nem mais bela. Semana passada foi para jogá-los fora, mas desistiu. Ainda era moda usar sapatinhos de verniz.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:53
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