Segunda-feira, Agosto 18, 2008
Magnólia
Embaixo do tapete do quarto, Magnólia escondia um alçapão que levava a sua saleta de trabalho. O ambiente secreto que tinha no máximo quatro metros cúbicos guardava ingredientes raros e preciosos que misturados compunham aveludadas obras da arte de matar. A mulher era uma preparadora de venenos. Uma conhecedora incomparável dos mistérios e segredos da morte e da vida. Sua obrigação era oferecer o descanso eterno digno e entender os delicados enlevos presentes nas narrativas de vida de cada uma de suas vítimas. Não era, entretanto, uma assassina. Sua mão não levantava a foice da Morte, apenas ajudava a aplicar o golpe. E era por encomenda de outros que agia. A ela não importava conhecer pessoalmente as vítimas de seus clientes, mas era-lhe essencial, para que cumprisse com suas obrigações, saber de suas histórias e conhecer as minúcias de suas personalidades. Tudo isso na ambição de oferecer a cada um o que por direito lhe coubesse. Assim, para o enganador oferecia uma morte advinda da trapaça, para o literato uma morte poética, para o ávido uma morte farta e para o entusiasmado uma morte arrebatadora. E fixava-se em detalhes, perdia-se em perfeccionismos desvairados, registrava o essencial e o frívolo em cadernos enormes; amava seu ofício como poucos. Um dia percebeu que, do resultado de uma tarde de trabalho, tinha obtido o seu mais belo e delicioso veneno, a sua quintessência artística, o seu ápice alquímico. Num irrefreável gesto de ciúme, percebeu que seria desperdício gastar todo aquele maravilhoso sumo lascivo em alguém que não fosse iniciado nas artes da morte, que seria uma desonra para com seus admirados mestres. Ela sabia que ao beber aquela mistura verde-esmeralda deixaria de viver em questão de minutos, mas não podia resistir, era a chance máxima de sua vida. Precisava experimentar o doce sabor de sua obra-prima.
Publicado
por Diego Spagnuelo às
13:12
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Domingo, Agosto 10, 2008
A culpa é minha
Por tanto desejar agradar as pessoas, acostumei-me a viver em cápsulas de cetim. Dentro delas sou a pessoa que ouve gritarias como cânticos, que ajuda traidores, que se humilha para não humilhar, que se divide em vários personagens para a ninguém desagradar. Quando saía de dentro destas cápsulas era eu mesmo. Tinha momentos tristes e felizes, fazia descobertas, ouvia lindas canções quando quisesse. Hoje, sou impelido a viver em cápsulas sem estar dentro delas. Não me permitem estar infeliz, não aceitam me ver doente e nem querem saber de minhas descobertas. Sou o resultado do desmedido egoísmo humano e tenho plena culpa nisso.
Publicado
por Diego Spagnuelo às
20:27
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Terça-feira, Agosto 05, 2008
Elixir da vida
Joaquinzinho apanhava tanto do pai que seus únicos momentos de tranqüilidade estavam nas escondidas em guarda-roupas e baús da casa. Ficava no escuro segurando a respiração e obrigando-se a não chorar. Enquanto o homem que o tivera gerado não se livrasse do Demônio, num de seus acessos etílicos, tinha que ficar imóvel e calado, fugindo de uma nova e, provavelmente mais dolorosa, dose de agressões. Ficava olhando pelas frestas iluminadas que se formavam no interior de seus abrigos e aguardando que tudo voltasse ao normal, que seu pai finalmente caísse em sono profundo ou que se arrastasse pelas ruas ao som das melodias imbecis que entoava. Às vezes aquilo tudo demorava horas, às vezes minutos. O menino começava a chorar e a respirar com mais liberdade assim que as coisas se endireitavam, mas raramente saía de onde estava para fazê-lo. Sabia que algum dia, dentro de um de seus esconderijos, encontraria numa porta oca ou num fundo falso um mapa que o levaria até um tesouro monumental, brilhante e bonito, cheio de ouro e pedras preciosas de todo tipo. Venderia uma parte. Com o dinheiro iria fazer muitas coisas: salvar seu pai era uma delas e encomendar um elixir que devolvesse sua mãe à vida era outra.
Publicado
por Diego Spagnuelo às
20:35
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