Segunda-feira, Julho 28, 2008



A história da velha que um dia amanheceu cega

A velha que morava na casa trinta e sete só aceitava conviver socialmente com uma pessoa se esta tivesse o tom de pele igual ao seu. Os matizes variados que passavam por sua janela todos os dias não a comoviam. Tinha medo das pessoas de cores diferentes e desviava descaradamente delas nas calçadas e recusava seus apertos de mão e abraços. Para suprir a falta de caridade e humanidade que tinha, costumava - quando não estava dilacerando um dos meninos negros da vizinhança com seu olhar destruidor - tecer fervorosos elogios sobre o jovem e belo padre da cidade e rezar pudicamente com os joelhos em grãos de milho. Apesar disso, era difícil encontrar nas redondezas quem não soubesse: para anjo só lhe faltavam os chifres, o rabo comprido e a pele vermelha.



Publicado por Diego Spagnuelo às 19:06
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Quarta-feira, Julho 23, 2008



Sublimes criaturas: As canções do limbo

Maria Rosa tinha nascido Frederico Homem, mas sempre soube que ao invés dela quem estava errada era a natureza. Diziam que más influências tinham-na deixado estragada, amolecido sua alma "viril" e transformado-a numa "coisa". Não era bem assim, ela sabia; aquilo lhe acompanhava desde sempre. Jamais desejou ter nascido inversa e, tampouco desejaria se possível fosse. Contra o que lhe viera de nascença nada podia fazer. Tudo parecia errado e torto. Não entendia por que as crianças de sua idade faziam escolhas que ela nunca conseguia fazer e por que os meninos ficavam felizes com as coisas que ela mais detestava. Sonhava com o dia em que as coisas iam se transformar, que segredos seriam revelados a ela inesperadamente, como devia ter acontecido com as outras meninas, suas amigas. Nada disso jamais aconteceu, porém. E com a chegada da juventude tudo pareceu piorar. Confundia-lhe e entristecia-lhe pensar sobre quem era e por que só podia sair às ruas sob as sombras e atrás dos muros ou vestindo disfarces psicológicos. Na escola era todos os dias tão humilhada que sentia dor e vergonha de chorar. E mesmo que quisesse fazê-lo, não receberia qualquer consolo ou conselho. Sua mãe era uma tonta, seu pai um sujeito horrendo e preconceituoso, sua família uma vara imprestável que venerava coisas banais e "certas". Não sabia até que momento poderia acreditar em suas próprias mentiras e até quando seus conhecidos fingiriam que não viam o quão farta estava de usar gravatas e venerar automóveis. Começou a estudar e a se dedicar a coisas da mente e do espírito enquanto meninas de sua idade começavam a se despedir de suas casinhas e bonequinhas. Ao contrário do que uivavam nas ruas e nos ambientes de ensino por onde passava, foi se tornando uma mulher inteligentíssima, refinada e bela. Uma mulher que tinha se graduado e doutorado e que já estava mais do que pronta para sair do limbo. Mudou seus referenciais, refez-se por dentro, amou-se muito, despiu-se dos disfarces gastos que usava e quebrou falsos conceitos sociais. Hoje é feliz. Há anos não conversa com aqueles que antes a consideravam parte da família, mas tem amigos, esposo e filhos que a respeitam, admiram e amam.



Publicado por Diego Spagnuelo às 19:09
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Terça-feira, Julho 15, 2008



Cálice negro

Amália fez vestidos de festa deslumbrantes com as rosas que Armando lhe dera e forrou cinco cômodos com seu perfume arrebatador. Com seus colares de topázios e ametistas fez jardins de inverno onde costumava escrever, pintar paisagens a óleo e beber chá sozinha. Aos domingos, retirava com delicadeza as colchas de ouro que repousavam em camadas sobre sua cama e as punha para roubar o dourado do sol e o frescor do dia. Como as rosas e os colares, as colchas de ouro também haviam sido dadas por seu amado em gesto delinqüente. Era das viagens longínquas que fazia que trazia os presentes tão lindos e caros, comprados, por certo, como desculpa pela demora no regresso ou para demonstrar que não tivera tirado Amália de seus pensamentos. Armando era impetuoso e exagerado, extravagante, destemperado. Enchia a amada de elogios, colocava-a acima dos céus, enchia-a de lírios perfumados e depois a ignorava por meses. Por meses ficava sem dirigir-lhe a palavra e era como se estivesse em uma de suas viagens de negócios. A esposa não podia ir com ele, obviamente, porque segundo dizia, tudo aquilo era muito cansativo e burocrático para uma dama. Amália que vivia porque Armando existia, que apanhava o perfume por ele exalado e o amarrava em sua memória, que abraçava suas roupas com adoração e profundo amor e que conservava por horas os lençóis de seu quarto enviesados pelo corpo do marido, percebera em certo momento que não havia nada escondido por entre os presentes que ganhava. Não havia neles amor, amizade ou carinho. Caiu em profundo desespero. Chorou por dias. Pensou que as dores de amor que sentia seriam incuráveis, mas o tempo foi o mais eficaz dos remédios. Tudo foi se dissipando em pouco tempo. Os castelos feitos de pérolas foram desmoronando, as fontes de licor secavam e as brisas de almíscar começavam a ficar inodoras. Nem ela podia acreditar, mas estava deixando de amar Armando.



Publicado por Diego Spagnuelo às 17:54
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Quarta-feira, Julho 09, 2008



Doce de laranja

Afastado da vista urbana e enfiado nas redondezas de um modesto e abandonado pomar estava o sanatório da cidade. O hospital, que antes tratava de pessoas que padeciam de males da mente, agora estava deixando os sãos dementes. Desde seu fechamento, em 1983, coisas estranhas supostamente vinham acontecendo. Segundo os moradores da cidade, nos inícios de madrugada as almas doentes do casarão fechado voltavam para conversar e rir em voz alta e para cobrar coisas dos vivos. Asseguravam já ter ouvido timbres vocais dos mais variados e ruídos dos mais tétricos. Sendo um dos sons ouvidos, inclusive, responsável pelos trincos hediondos, um pouco ampliados pelo forte vento dos últimos dias, no vitral central da igreja da praça e por outros acontecimentos obscuros. Conforme contam, o pescoço de Santa Maria Madalena fora rasgado impiedosamente numa quinta-feira, às duas e dezessete da manhã, por um grito fino e horrendo que parecia traduzir com perfeição a presença sedutora e venenosa da morte. Cinco crianças, no momento da manifestação fantasmagórica, retorceram-se violentamente em suas camas e amanheceram com várias costelas quebradas. Algumas galinhas pardas foram encontradas emaranhadas em copas de árvores da região e o pároco da igrejinha fora encontrado inconsciente, deixando de falar para sempre daquela noite em diante - assim que o religioso caiu em sono profundo, o vitral iniciou uma contração invisível, que culminou em doze enormes trincos. Dizem os mais velhos que naquela quinta-feira as luzes do sanatório, há muito desligadas pela companhia de energia, começaram a piscar descontroladamente e a alterar matizes: passaram de um amarelo-avermelhado para um verde-esmeralda, depois se banharam num turquesa-pálido e se desfizeram num escarlate-vivíssimo. Em nenhuma parte, porém, foram encontradas lâmpadas ou instalações elétricas em funcionamento. E também não foram encontrados vestígios humanos quaisquer. Não havia pegadas, arranhões ou digitais. Estava tudo como há anos. E como estava ficou. Após as investigações realizadas à luz do dia, o delegado e alguns policiais da cidade fecharam o casarão e de lá saíram amedrontados. Não tão longe dali, alguns moradores constatavam consternados e estáticos a imensa cratera de odor sulforoso que se alastrava aos poucos pelo assoalho antiqüíssimo da igrejinha da praça.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:26
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