Domingo, Maio 25, 2008
O contrato que o Diabo lavrou
Perturbada pela cinzenta solidão sentimental que já por doze anos lhe acompanhava, Esmeralda ofereceu sua alma ao Diabo em troca de um amor sublime e eterno. Assinou seu nome usando uma demoníaca caneta tinteiro carmim, e acertou dar a ele sua alma quando de sua morte. O Diabo, vestido impecavelmente e apresentando-se sob a forma de um homem de cabelos negros, altivo e sedutor, jurou com as duas mãos sobre a Bíblia que em quarenta e oito horas Esmeralda receberia sua "encomenda". Mas nada houve em semanas. E em meses tampouco. Somente após cinco anos algo ocorreu; um estalo. Esmeralda percebera algo terrível: tivera sido passada para trás.
Publicado
por Diego Spagnuelo às
20:56
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Quinta-feira, Maio 15, 2008
Sublimes criaturas: Antônio
Antônio tinha o nariz um pouco mais comprido que o comum. Na verdade muito mais comprido, fino, pontudo e retilíneo que qualquer outro de que se tivesse notícia. Pelos olhares desatentos até podia ser considerado um homem feio, estranho, mas bastava um pouco de atenção para ver o quanto era belo. Através do nariz avantajado que tinha podia sentir os aromas mais diversos e com precisão espantosa. Sabia dizer, por exemplo, quem estava mentindo e quem estava falando a verdade somente pelo cheiro. Também era fácil avaliar a probidade e a honradez de um indivíduo pelo olfato: escolhia seus amigos pelo nariz e estava feliz com isso. A seu lado só estava quem realmente tivesse valores verdadeiros. Eram pouquíssimos os amigos, mas valiosos. Para estes poucos, Antônio era um ser de beleza rara e de coração grandioso. Falar de suas qualidades era uma tarefa facílima. Quatro meses atrás, um de seus poucos amigos, um agente da polícia, convidou-o a trabalhar num escritório de investigações, examinando cenas de crime e detectando com seu faro extraordinário venenos escondidos em alimentos. Antônio não perdeu tempo. Aceitou na hora.
Publicado
por Diego Spagnuelo às
12:24
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Sábado, Maio 03, 2008
Policarpo
Após ter passado grande parte da vida envolto em pesquisas cuja finalidade era escondida da comunidade médica, o doutor Policarpo estava pronto para pôr seus planos em prática: como Victor Frankenstein, personagem ficcional criado brilhantemente pela inglesa Mary Shelley, desejava dar vida a uma criatura morta. Tinha ele lido "Frankenstein" um sem número de vezes e acreditado capturar mensagens ocultas deixadas pela autora. Ao longo dos anos tivera desenvolvido uma técnica cirúrgica que promovia a junção perfeita entre os tecidos humanos de distintos indivíduos sem ocasionar cicatrizes ou marcas visíveis. Também tivera desenvolvido um método no qual era possível conservar perfeitamente (e por tempo indeterminado) corpos sem vida. Todo esse conhecimento, numa noite tempestuosa, resultou na sua experiência máxima: seu próprio monstro artificial. Como na obra de Mary Shelley, sua criatura também resultava da junção de partes de cadáveres roubadas de cemitérios e seu estímulo vital tivera sido uma descarga elétrica altíssima. Mas as semelhanças terminavam aí: em pouco tempo descobrira que o monstro por ele criado não era de fato um monstro. Por ter sido concebido sob critérios rigorosíssimos, resultara num ser tão belo e perfeito que tornava os ambientes em que entrava mais iluminados e puros, o que era potencializado por sua personalidade doce, gentil e artística. Porque era também um artista. Um artista das artes humanas e das artes exatas, um ser sublime em sentidos vários. Inicialmente, fascinado por tantas qualidades, Policarpo sentia orgulho de sua criatura, mas aos poucos foi desenvolvendo um sentimento de inveja tão cruel e destruidor que não mais o permitia estar num mesmo ambiente com seu monstro divinal. Seu ser artificial estava vivendo coisas que ele próprio tivera abdicado em nome de sua obsessão pela ciência: amava pessoas, conhecia lugares, era um homem jovem, belo, intelectualmente privilegiado e socialmente benquisto. Sua inveja crescia feroz e mortal, e era uma inveja das que desejavam destruir para não ver as verdades escondidas em si. Como as atitudes rancorosas de Policarpo eram a cada dia mais evidentes, o homem artificial não demorou a perceber que seu criador já não lhe tinha o mesmo amor, que já não lhe incentivava a descobrir as delicadezas da vida com tanto fervor. Concluiu, duramente, que o homem que o tivera concebido estivera arrependido do que tivera feito e foi até ele anunciar uma decisão sua que resolveria aquele transtorno: iria viajar para longe de seu mestre e não tornaria a perturbá-lo com sua presença. Mas o homem pareceu não aprovar a decisão da criatura; aquele monstro imundo não podia simplesmente ganhar o mundo à custa de sua maestria científica, não podia negar-lhe a gratidão eterna. Quem era ele para aquilo? Desvairado, Policarpo foi brutal: apanhou um bastão de ferro que usava como tranca numa das janelas da casa e desferiu um golpe contra a criatura. Matou-a porque era dono daquela vida, porque só ele poderia decidir o destino de um ser tão hediondo, ordinário, atrevido, impetuoso, apaixonante e lascivo quanto aquele. Só ele poderia tirar aquilo que tivera dado. Só ele poderia terminar o começado.
Publicado
por Diego Spagnuelo às
16:29
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