Sexta-feira, Março 28, 2008



As verdades sobre Virgílio

O velho Virgílio era um colecionador de fatos não acontecidos. Sofria ele de elevadíssimo distúrbio psicológico que o fazia lembrar de coisas pelas quais nunca tivera passado e defender histórias inexistentes envolvendo gente conhecida. Costumava dizer, por exemplo, que se não tivesse sido engenheiro, seria advogado ou físico, quando na verdade nunca tivera entrado em uma universidade. Também dizia que sua falecida mãezinha era uma mulher caridosa e doce, de mente aberta e cheia de habilidades, mas a coisa era outra: sua mãe não estava morta, era uma noventona insuportavelmente arrogante, ranzinza, alienada e retrógrada. Os médicos de Virgílio não lutavam contra suas noções distorcidas a respeito de si e do resto do mundo, pelo contrário, sabiam que qualquer esforço seria em vão. O velho homem sofria de um mal que os cientistas costumavam chamar de "transtorno do reflexo conveniente", que nada mais era que a capacidade de gerar falsas facetas de personalidade, bem-sucedidas e bem-resolvidas, e acreditar nelas. Para esse distúrbio não havia tratamento, porque os pacientes jamais detectavam em suas vidas inverídicas qualquer relação com doenças, vulnerabilidades ou transtornos e, assim, não aceitavam ajuda médica ou psiquiátrica. Como homem de bem e engenheiro respeitável que "era", Virgílio ia ao médico para dizer que ia, porque acreditava ser pleno em saúde física e mental. Às vezes, apenas para não dizer que era de todo imune, admitia uma dorzinha aqui, um resfriado ali, mas nada mais grave que isso. Era um homem saudável, admirável e feliz.



Publicado por Diego Spagnuelo às 13:02
Deixe seu comentário



Sexta-feira, Março 21, 2008



Apolinário: O segredo do chef

Na sala da casa de Beterraba está pregada, em uma das paredes mais iluminadas, a receita de seu primoroso "Cozido de Outono", que apesar do nome é baseado na pintura "Verão" de Giuseppe Arcimboldo. O chef admite, como homem centrado e realista que é, o quão incomum pode parecer alguém se inspirar em uma pintura a óleo para criar uma receita culinária, mas lembra - e nisso deixa escapar sua admiração imensa pela arte - que o pintor italiano foi tão genial e autêntico em suas criações que seria uma temeridade desperdiçar os legumes exuberantes e as verduras tão deliciosas das suas obras gastronomicamente ricas, não os aproveitando no preparo de pratos saborosos e, claro, artísticos. É, porém, tão modesto que não chega a pensar na possibilidade de que, não fossem suas hábeis mãos e seu refinado paladar, o "Cozido de Outono" jamais seria o que é. E a prova irrefutável disso é que a receita do prato está lá, na parede de sua casa, para quem quiser copiá-la e prepará-la. Alguns, inclusive, já o fizeram, mas não conseguiram bons resultados. Apolinário é único na harmonia gustativa de seus pratos e na criatividade porque, além de se inspirar fluentemente na arte, percebe o que as pessoas querem, sente os ventos da estação, ouve conselhos e tempera suas receitas cada dia de modo diferente. Muitos sabem, mas há quem não admita: Beterraba é mestre em temperos. E esse é o segredo.



Publicado por Diego Spagnuelo às 17:32
Deixe seu comentário



Quinta-feira, Março 13, 2008



Mundos escondidos em cascas de melancia

Madame Raviola não era madame coisa nenhuma. Nascera no interior dos interiores e até o início da vida adulta jamais tivera visto qualquer coisa menos interiorana que uma lâmpada incandescente. Ao completar dezoito anos, porém, pusera em sua cabeça frívola que iria estudar na cidade grande e não sossegou até ver seu sonho realizado. Após uma viagem de ônibus longa e aborrecedora, chegou ao seu destino cheia de malas nas mãos e de idéias imbecis na cabeça. E não demorou mais que doze minutos para que se julgasse conhecedora de todas as coisas que uma cidade grande pudesse ou não a ela oferecer. Encontrou tantos tipos diferentes em seu caminho, tantas culturas fascinantes, que resolveu criar uma nova personalidade para si: passaria a inserir palavras estrangeiras em seu vocabulário - porque para ela aquilo era o que havia de mais sofisticado - e trataria de viver seus dias a vasculhar revistas de gente rica e vazia a fim de "aprender" sobre a vida na cidade grande. No intervalo das aulas, metida entre pessoas que nem conhecia, falava cheia de si sobre carros velocíssimos, países divinos e comidas da moda. E mesmo que não conseguindo disfarçar o sotaque bastante evidente e tampouco obtendo êxito com a escolha de suas novas indumentárias, acreditava-se uma criatura de elegância e porte invejados. Hoje, aos quarenta anos, é uma mulher tão ignorante, arrogante e vulgar que não consegue manter com naturalidade qualquer relação social prolongada. Além de assassinar constantemente os bons modos e a cultura, insiste em continuar falando palavras estrangeiras de maneira desvairada. Dia desses, enquanto retocava a maquiagem grosseira que lhe cobria as imperfeições do rosto, disse ao filho de uma amiga sua que brincava com um gato malhado (como quem soubesse o que estivesse dizendo): "Um encanto esse seu petit gâteau, menino querido. Um encanto". E riu satisfeita depois.



Publicado por Diego Spagnuelo às 23:06
Deixe seu comentário



Domingo, Março 02, 2008



Rapsódia em azul

O homem que morava no fim da rua nunca saía durante o dia. Trabalhava em uma grandiosa multinacional e, como a maior parte das negociações que realizava envolvessem a Romênia ou arredores, dormia no período diurno e fazia seus acertos comerciais por telefone ou internet no período noturno. E vestia-se sempre com muito garbo, mesmo que para ninguém. No meio da madrugada, poucos eram os que viam o distinto cavalheiro desfilar elegantíssimo pelas ruas indo em direção ao trabalho. Não era admirador de festas e tumultos e fugia de amizades e relacionamentos despropositados. Não que fosse um interesseiro, apenas não lhe cabia a hipótese de sustentar vínculos com gente que só desejasse manter as aparências e levar adiante as leis da boa vizinhança. Gostava sim, de pessoas inteligentes e maduras, que apreciassem bons livros e que ouvissem música de qualidade, por exemplo. Com estas sentia-se à vontade, pois tinha assuntos para conversar. Ninguém sabia, mas apesar de ser um homem belo e refinadíssimo, perdia a compostura diante de coisas banais como réstias de alho e água benta. Além disso, longe dos olhos curiosos de todos, guardava um caixão forrado em seda negra no porão escuro e tenebroso de sua residência. Lá dormia todos os dias um sono doce e tranqüilo; sono modesto, quase pueril.



Publicado por Diego Spagnuelo às 11:03
Deixe seu comentário


Arquivos