Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008



Excêntrico mundo: De volta à casa

Após uma longa temporada no exterior destinada ao aperfeiçoamento profissional, Gira Plume, a coruja estilista mais encantadora e deslumbrante de todas, estava de volta. Lá fora, enquanto participava de conferências e palestras sobre moda, apresentou algumas coleções suas a grandes nomes da alta costura e fechou ótimos negócios com empresários do mundo das passarelas. Isso tudo, claro, sem perder a modéstia e a elegância. Ao seu lado, a inseparável Nora, sua amiga e governanta, aproveitava para conhecer novos lugares e para rever os pais da estilista, seus idolatrados antigos patrões. Deles ganharam coisas novas para casa e duas entradas para um musical que estava sendo apresentado na cidade. Plume, para presentear Hugo Canto, seu namorado jornalista, comprou uma excelente câmera fotográfica profissional e um pequeno conjunto de lentes. E quando retornaram ao país e chegaram à Olga Louros, a primeira coisa que fizeram foi entregar o presente ao jornalista. No dia seguinte, estampada na capa d'O Canto da Manhã, estava impressa uma foto muito boa, cuja autoria, souberam ao receber a visita de Canto, era dele próprio. Entusiasmado, Hugo não conseguira esperar muito para estrear sua nova câmera fotográfica.



Publicado por Diego Spagnuelo às 18:37
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Terça-feira, Fevereiro 26, 2008



Mil em uma

Maria Mariola já viajou a vinte e um países. Já comeu goiabada, já comeu queijo, e já comeu goiabada com queijo. Também já comeu goiaba amarela com bichinhos e nem reclamou. Já se vestiu de comissária de bordo em uma festa de carnaval e já espiou pela fechadura. Já comprou coisas inúteis pela internet e já encontrou guarda-chuvas em ônibus. Dias atrás, prometeu a si mesma que iria parar para descansar um pouco antes de voltar a fazer e descobrir coisas novas. Não cumpriu.



Publicado por Diego Spagnuelo às 18:33
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Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008



Notas de rodapé

O avô do menino Mariano, Teodoro Maia Passos, era uma das figuras mais prepotentes e ignorantes que conhecia. Além de sustentar credos sociais e políticos repletos de incongruências e de contradizer-se a cada novo discurso, Teodoro adorava pensar que a vida no mundo existia por um único e simples motivo: para contemplar sua inteligência e grandiosidade e se curvar ante suas falas magistrais e nobres. Ainda jovenzinho o neto soubera que o avô tivera provado, certa vez, uma detestável mousse de castanhas e deixado de comer sobremesas desde então. Como se as sobremesas do mundo fossem todas, por antecipação, tão ruins quanto a mousse de castanhas mal preparada, Teodoro simplesmente negara-se a pôr em sua boca "privilegiada por dons retóricos e poéticos vários" qualquer outro prato doce que fosse. Apesar de pouco relevante para os outros, o episódio com a mousse servira para explicar ao menino a falta de coerência e a ignorância explícita do avô, o que também lhe proporcionava uma visão mais verdadeira e ampla a respeito do velho Maia Passos, uma vez que quase todos da família e do círculo quadrado de amigos sentiam por ele excessos cegos de admiração e orgulho, sentimentos que beiravam o fanatismo. Mariano, fazendo-se ciente das discrepâncias do avô, já não engolia tudo que lhe dissesse sem refletir. Para o menino, mesmo os piores perfumistas poderiam, eventualmente, produzir essências divinas e os mais desajeitados cineastas, dirigir filmes que emocionassem ou fizessem sorrir.



Publicado por Diego Spagnuelo às 19:36
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Terça-feira, Fevereiro 19, 2008



O caldeirão asqueroso e gracioso da bruxa

A simpática bruxa Calista adorava inventar receitas incomuns, aproveitando-se quase sempre de ingredientes pouco explorados como abóbora e couve-de-bruxelas. Já preparara gelatinas à base de berinjela e pasteizinhos de alcachofra, mas não gostara dos resultados e desistira dos ingredientes. Dizia, cheia de certezas, que era possível adaptar qualquer alimento a qualquer receita, mas que para isso era preciso doses generosas de paciência e boa vontade, coisas que ela mesma não tinha todos os dias. Apesar disso, era exímia e minuciosa costureira e se gabava por ter produzido um vestido com exatos mil e doze retalhos distintos, resultado de cinco meses de trabalho árduo movidos a porções quase que incalculáveis de sopas e sucos revigorantes de alho-poró. Para Calista era fácil apreciar sopas à base de batata e ervas finas, refrescar-se com sucos de limão, laranja ou morango e salivar diante de tortas de framboesa, porém muito previsível e tedioso. Acreditava que a verdadeira graça na vida estava em provar coisas novas, fossem elas doces como mel, salgadas como bacalhau ou amargas como omeletes de quiabo verde.



Publicado por Diego Spagnuelo às 17:24
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Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008



Hortelã

Nos dias de folga, Bartolomeu costumava fazer pequenas refeições visitando planetas no espaço sideral. Preparava-se para seus passeios sempre três dias antes, a fim de que tudo saísse nos conformes, sem atrasos e sem adiantos. Para isso listava o que pretendia levar e selecionava as roupas que iria vestir de acordo com a atmosfera escolhida. O cesto de palha que era do avô se recheava de coisas: geralmente frutas, pães, sucos, utensílios de pesca e toalhas de mesa xadrez. Quando chegava ao destino (geralmente um planeta ou planetóide), estendia a toalha de mesa com cuidado, dispunha os alimentos de forma organizada e sentava um pouco. Às vezes roubava uma ou duas xícaras de leite da Via Láctea para misturar ao café que trazia, em outras chegava bem próximo do sol para aquecer seu chá de hortelã. E ficava sentado pelo espaço várias horas, caçando estrelas com sua vara de pescar retrátil ou admirando a misteriosa face de Júpiter e de seus quatro satélites naturais.



Publicado por Diego Spagnuelo às 18:51
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Terça-feira, Fevereiro 12, 2008



Anáguas de seda japonesa

A fada Lima-limão costumava atender aos pedidos de suas afilhadas e deixar, após a magia realizada, tortinhas frescas de limão para um pequeno lanche. Fazia vestidinhos primaveris para suas pobres borralheiras ou, quando de algum acontecimento especial, pomposas vestes de festa. Uma vez viu uma mocinha maltrapilha chorando à beira de uma fonte e quis ajudá-la, mas não pôde. Estava indo a seu encontro quando percebeu, com suas intuições mágicas, que aquela menina já possuía sua fada-madrinha. E dizia-se que quando alguém já possuísse uma fada-madrinha, nenhuma outra podia interferir. Foi então que, alguns meses mais tarde, ao receber uma correspondência em que era convidada para o casamento do príncipe, na qualidade de prima da madrinha da noiva, descobriu através de boatos e juntando uma informação aqui e outra acolá que a menina em prantos era a futura esposa do príncipe e que sua prima Abóbora (famosa por seus atrasos), era sua fada-madrinha. Soube, entre outras coisas, que atendendo aos lamentos de sua afilhada, Abóbora produzira para ela um vestido de festa deslumbrante que tivera provocado um baque nos cofres mágicos e que, por esse motivo, pudera existir em forma mágica somente até a meia-noite. Também descobriu, através de boatos, o nome esquisito da jovem noiva do príncipe. Era Candirela, Cindarela, Citronela... ou algo semelhante.



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:51
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Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008



Apolinário: O Diabo veste Louis Vuitton

Se participasse de uma produção cinematográfica requintada, Iolanda, a ex-cunhada de Apolinário Beterraba, certamente viveria uma personalidade que se inserisse no grupo das vilãs belas e deslumbrantes. Não que fosse efetivamente uma vilã, mas que ficasse bem claro: para boa moça não servia. Era maldosa e incisiva em seus comentários, e um tanto sádica em suas decisões. Mas, para alívio de todos (ou simples azar), sua maledicência não passava disso. Andava sempre sobre sapatos caríssimos e desfilava pelas ruas trajando as últimas súplicas da moda trazidas diretamente de Paris, Milão, Nova Iorque e Londres em imensas bagagens Louis Vuitton. Quando se divorciou do irmão de Beterraba, exigiu que durante alguns anos este lhe desse uma farta quantia em dinheiro para que pudesse continuar vivendo no mais alto padrão de vida, com suas roupas caras e sua coleção interminável de bolsas e sapatos. Apesar disso, sua beleza não dependia de qualquer adorno adicional para se fazer evidenciar. Rosto, lábios, olhos e cabelos eram nela divina e naturalmente belos. Seus gestos, o andar firme, a postura tão perfeita e seu requinte também eram vistosos, mas bastava que abrisse a boca para que tudo fosse para o espaço. Simplesmente não conseguia ser gentil com as pessoas e não suportava perder seu tempo ouvindo quem quer que fosse.



Publicado por Diego Spagnuelo às 10:21
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Sábado, Fevereiro 02, 2008



Sereias de navio

Pilar Prado Silvestre tinha sonhos. Eram tantos, tão efêmeros e incomuns que temia esquecê-los ou deixar de amá-los. Quando tinha novos sonhos, escrevia-os com letra miúda em papéis diversos e os encerrava em segredo numa caixa velha que tinha, embaixo da cama. A colcha de retalhos que cobria o colchão macio sobre o qual repousava todas as noites, de tão longa que era escondia completamente o vão existente entre o estrado da cama e o chão. Lá, acreditava, ninguém seria capaz de apanhar seu tesouro, como se estivesse sob a guarda de alguma criatura que devorasse o que lhe coubesse proteger a fim de manter a coisa protegida sempre próxima. Algumas das situações oníricas imaginadas pela excêntrica e graciosa Pilar incluíam: receber de maneira miraculosa algum poder maravilhoso, como a onipresença ou a onisciência; ser surpreendida com uma chuva de perfumados chocolates recheados com pastas de frutas; comer sozinha um gigantesco bolo de casamento; ser a paixão secreta de algum astro de cinema que tentasse a todo custo conquistá-la (sem sucesso) e fazer alguma descoberta estupenda que alterasse completamente os rumos da ciência. A explicação para seu apreço ingênuo e quase infantil por coisas tão inalcançáveis e inusitadas era simples: ela sabia que mesmo as sereias de navio, presas para sempre à proa das embarcações, podiam sonhar.



Publicado por Diego Spagnuelo às 16:29
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