Sábado, Janeiro 19, 2008
A viagem do menino a Saturno
O menino sempre quis ser como um de seus heróis ficcionais, companheiros de leituras prazerosas em dias de chuva e em tardes quentes de verão. Queria viajar para outras galáxias e conhecer novos mundos. Longe de sua casa, acreditava estar livre da pouca paciência e da completa falta de interesse dos pais pelas coisas que descobria lendo livros muito complexos para sua idade. Sua mente era tão maravilhosamente evoluída que o possibilitava compreender sem dificuldades as coisas físicas e metafísicas da vida, os mistérios por trás da ciência e as verdades a respeito dos acontecimentos mais obscuros. Em uma noite silenciosa, disposto a visitar um dos planetas de que mais gostava, ordenou em mente que seu corpo começasse a sublimar e que tornasse a se materializar somente sobre a superfície de Saturno. Dois anos se passaram e o menino jamais foi visto outra vez. Alguns diziam que tivera sido abduzido por criaturas de outros planetas para viver em um lugar repleto de tecnologias e conhecimento, outros garantiam que seu corpo não conseguira suportar o gasto elevado de energia que mantinha sua mente ativa e padecera, e uns outros, sob visão cética e de certa forma realista, simplesmente acreditavam que tivera fugido de casa após perceber que de fato ninguém o compreendia.
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por Diego Spagnuelo às
14:41
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Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
A donzela da lata de ervilhas
Certa vez um homem muito esperançoso e ingênuo cujo nome era Honório, ao abrir uma lata de ervilhas recebeu a ilustre visita de um pequeno ser que se autodenominava a "donzela da lata de ervilhas". Era ela uma miniatura feminina de sete centímetros de altura e de gênio fortíssimo que ao invés de um simplório vestido costurado pelas mãos mágicas de alguma criatura de certa floresta maravilhosa, vestia uma esplendorosa criação de Yves Saint Laurent e calçava deslumbrantes sapatinhos de diamante. Com voz esganiçada e ordenadora, imperara ao homem que fizesse o favor de beijá-la, para que o terrível encanto derramado sobre sua alma se desfizesse. Como Honório era um indivíduo de bom coração e, sobretudo, um homem solteiro e ávido por um lindo e verdadeiro amor, beijou-a e pediu-a em casamento assim que a viu voltar ao tamanho normal. Na lista de presentes enviada junto ao convite de matrimônio, a ex-donzela da lata de ervilhas exigia dos convidados (entre outras coisas): um iate, uma casa com varanda na Ilha de Páscoa, um colar de safiras, um ano de jantares pagos, um conjunto de cama bordado a ouro, uma pintura autêntica de Auguste Renoir, quatro veículos esportivos, um dirigível com boa ventilação e dois trajes noturnos. Estes, claro, assinados pela marca Saint Laurent.
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por Diego Spagnuelo às
21:08
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Quinta-feira, Janeiro 10, 2008
Histórias de uma dama: Fortunas
A senhora Vanton estava tão parvamente encantada com os preparativos de seu casamento que sequer parou para refletir sobre as escolhas equivocadas que tivera feito. Acreditava ter encontrado um homem bom e confiável para amar e decidira dar-lhe plenos poderes. O marido tinha controle completo sobre suas finanças, tratava de seus negócios e se responsabilizava pelo crescimento de sua fortuna. Não levou, porém, mais que cinco dias e meio para perceber que se casara com uma pessoa má e calculista e que estava presa em sua própria residência. Dois anos haviam transcorrido desde o matrimônio. Vivendo em sua grandiosa e erma casa de campo passava os dias a arrepender-se de suas atitudes precipitadas e tolas e fazia constantes descobertas sobre a imunda reputação de seu cônjuge: em uma de suas inúmeras tentativas frustradas de fuga ouvira da boca do próprio marido que estava arruinada, que nenhum de seus bens lhe pertencia mais e que de nada valia fugir, já que fora da residência não teria qualquer dinheiro para viver. Não fosse a ajuda de um jardineiro muito cordial e perspicaz, que lhe tivera sugerido vender todas as suas jóias valiosíssimas e depositar o dinheiro em alguma instituição bancária para fazê-lo render, nunca teria conseguido se ver livre das garras do homem com quem tivera desposado. Sem escolhas, confiara no amigo jardineiro e pedira para que, por ela, realizasse todos os trâmites bancários e para que lhe mantivesse constantemente informada sobre sua secreta situação financeira. Quatro anos mais tarde, Clotilde já havia conseguido reunir uma pequena fortuna: estava na hora de agir. Infeliz e farta de sua condição, pedira ao jardineiro, como último favor, para que lhe procurasse uma bela casa, que deveria ser longe dali, não muito cara e nem antiga demais. E ele o fez. Ao longo de duas semanas trouxe fotos de residências e as foi mostrando à senhora Vanton. Uma delas despertou seus interesses, era ampla e charmosa, e seu preço era bastante razoável; comprou-a. Num dia de verão, apanhou de seu guarda-roupa algumas peças ainda não roídas pelas traças e as enfiou numa mala antiga. Vestida como quem ia a um funeral, com peças e mais peças de tecidos escuros (todas as suas vestes leves e de cores diversas tinham sido queimadas pelo marido em um súbito ataque de ciúmes), partiu para sempre daquela vida de horrores. Não suportaria passar nem mais um dia naquela casa ao lado do homem com quem tivera casado.
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por Diego Spagnuelo às
14:52
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Domingo, Janeiro 06, 2008
Histórias de uma dama: O relógio da sala
Quando a senhora Clotilde Vanton chegou à cidade em uma tarde escaldante de verão, os moradores da vizinhança estranharam a maneira como estava vestida: sobre o corpo carregava um vestido longo de mangas compridas e de gola fechada, e na cabeça, quiçá para se proteger do sol, trazia um chapéu de inverno. Mas mesmo coberta por muitos tecidos e adereços (todos eles em tons escuros), parecia imune ao calor. Na mão esquerda trazia uma mala de madeira antiga e na direita um pequeno lenço que lhe servia de leque, e ainda que atulhada de roupas e carregando uma valise aparentemente muito pesada, seu semblante não era o de quem estivesse desgostoso ou irritado. Ao que parecia, tudo aquilo estava sendo muito reconfortante e satisfatório para ela. E de fato estava. A casa que havia comprado e que iria reformar era uma casa de sonhos. Quando abriu a porta de entrada de seu novo lar ergueu um pouco a cabeça e olhou de um lado para o outro num passeio suave que percorreu portas, janelas, uma poltrona velha e algumas teias de aranha. Às cinco horas receberia uma visita. Consultou o relógio da sala; faltava ainda meia hora, havia tempo para um pequeno descanso. Apanhou sua mala, recostou-a aos pés da poltrona velha e se sentou um pouco.
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por Diego Spagnuelo às
20:45
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Quinta-feira, Janeiro 03, 2008
Matrioska
Agradeço por não me ter convidado para passear noite passada, minha querida, pois se o fizesse não suportaria esconder o quanto me incomoda sua completa ignorância pelas coisas valiosas da vida. Também não suportaria ouvir seus assuntos estúpidos e moles, cheios de comentários sem graça disfarçados em discursos nobres e importantes. Fique sabendo, e digo isso pela última vez, que não desejo saber se é melhor aproveitar as férias na região norte ou na região sul do país, se os aviões tremelicam durante a aterrissagem ou se você dança até o sol raiar todo fim de semana. Meu interesse por suas coisas imbecis e chatas não existe em nenhum grau e sua felicidade de gente manipulada e oca só faz aumentar tal condição. Se me quer por perto, prometa, eu lhe rogo, que nunca mais me indicará livros para leitura e nem mesmo qualquer filme que lhe tenha fascinado, porque sei, e como sei, que se algo lhe fascinou certamente não me fascinará. E se tudo isso não for suficiente para entender que não me importo por sua vida, garanto que não me incomodam suas amizades escolhidas em lojas de brinquedos e sua eventual indiferença para cima de mim. Confesso aliviado, ainda, que me enojam suas piadas vulgares e tolas (tão desgastadas e conhecidas), que já não agüento sorrir falsamente quando lhe encontro nas ruas e que não mais suporto ser envolvido por seus abraços frouxos e hipócritas. Para mim você, há anos, deixou de existir. E isso é tudo. Como uma matrioska russa você é tediosamente idêntica em todas as camadas de sua alma e completamente previsível em suas atitudes.
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por Diego Spagnuelo às
15:59
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