Quinta-feira, Novembro 29, 2007
Apolinário: Aromas e sabores
Em viagem pela Ásia, certa vez, Apolinário descobriu um velho agricultor que, entre outras coisas, cultivava um número variado de temperos finos, de sabores maravilhosos e de grandiosa fama. Quase tudo que produzia em sua modesta propriedade se destinava a seu próprio consumo e raros eram os que, visitando-o, saíam carregando honrosos qualquer uma de suas especiarias. Beterraba, pela devoção humilde e verdadeira que nutria pelos temperos de um modo geral, foi um deles. Depois de ter contado ao velho homem sua história fascinante de busca incansável e de descobertas, foi presenteado com suas ervas de perfume delicado e de gosto surpreendente. E mesmo não sendo ainda o que procurava tão esperançosamente, sentiu-se pleno com a atitude lisonjeira do agricultor. Sentado à varanda de sua casinha de madeira simples, contara ao gourmet que apreciava e respeitava as pessoas que mantinham sonhos dentro de si. Para ele, as pessoas que nutriam esperanças livres de interesses eram dignas de seu respeito e mereciam, ao visitá-lo, ser presenteadas. Chegando ao Brasil, Apolinário resolveu nunca utilizar as especiarias tão valiosas do homem para o preparo de qualquer prato em seu restaurante porque entendeu que seria incorreto vender aos seus clientes um presente. Pediu à Mirela, uma de suas ajudantes mais dedicadas (e exímia preparadora de conservas e molhos) que pusesse as ervas asiáticas tão raras em um vidro lacrado a fim de mantê-lo fresco e perfumado por longo tempo. No mesmo dia, ao receber o tempero já preparado, guardou-o com devoção em um dos armários de sua casa. Nunca teve coragem de com ele preparar qualquer prato, mas soube intimamente que sua influência recairia sobre suas criações para sempre.
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por Diego Spagnuelo às
10:23
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Terça-feira, Novembro 27, 2007
Por não acreditar em flores
Dentro de um dos quartos do casarão morava trancafiado um fantasma melancólico e ruidoso. Às noites de silêncio profundo, costumava cantarolar pelos corredores suas lamúrias em choro arrastado e prolongado no que parecia ser uma espécie de cantiga religiosa. Em algumas noites o choro não se estendia por mais de duas horas, em outras começava com o surgimento da primeira estrela e devagar se arrastava até o alvorecer do dia, dissolvendo-se ao cantar do galo. Um dia, há anos, inconformados com o incômodo imensurável ocasionado pelos traumas psíquicos de seu hóspede espectral, os donos do casarão trancafiaram-no em um dos quartos e enterraram a chave do aposento no outro lado da cidade, em um terreno arenoso e velho, para que de lá ninguém pudesse tirá-lo. Mas aconteceu que anos mais tarde, um casal de idosos comprou uma pequena e antiga propriedade cujo solo, arenoso e velho, tivera-os fascinado: era justamente o solo de que precisavam para plantar a raríssima espécie de flor que cultivavam desde a mais plena juventude. Num dia de verão escaldante, enquanto preparavam a terra do quintal e abriam sulcos profundos a fim de enterrar suas sementes tão raras e caras, encontraram a chave de ferro que abriria a espessa porta de madeira do quarto do casarão que se encontrava do outro lado da cidade. Testaram a chave em todas as portas de sua pequenina residência, mas não obtiveram, obviamente, qualquer resultado. Como a chave não fosse daquela casa, pensaram ingênuos que poderiam encontrar tesouros maravilhosos com ela. Se tinham-na achado suspeitamente enterrada (estava embrulhada em um trapo decomposto que lembrava linho) era porque para alguma coisa servia. Foi então que abandonaram o cultivo lento e pouco lucrativo das flores e passaram a pesquisar sobre as origens misteriosas daquela chave.
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por Diego Spagnuelo às
13:01
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Domingo, Novembro 11, 2007
Vida em cápsulas
No começo a amizade de Alegra e Petro Corsani era tão comum e verdadeira quanto qualquer outra. Eram como irmãos que se adoravam, trocavam elogios e contavam as histórias de suas vidas. O problema era que Alegra não passava de uma moça comum, de cabelos negros e sardas no nariz. Corsani pensava-se melhor que ela; era um velho cineasta de renome, um artista repleto de qualidades, um cérebro eruditíssimo, uma personalidade fascinante. Morreria em carne, mas não em alma. O fato de Alegra ser apenas uma moça como tantas outras (o que, no fundo, não era verdade) não lhe incomodava, porém. Isso enquanto ela lhe dirigia, com certa freqüência, palavras delicadas e elogiosas, cheias de interesse artístico e emoção. Considerava-se uma moça verdadeiramente honrada em ter conhecido alguém como Petro Corsani em vida. O fato de o cineasta considerar-se um deus vivo, uma figura iluminada descida diretamente dos céus (o que, para ele, era verdade) não lhe incomodava, porém. Isso enquanto tinha respeito por suas palavras dedicadas, enquanto ouvia-a com interesse e lhe retribuía sua amizade verdadeira. Era ele, em verdade, um deus apenas em sua própria mente. Porque para as pessoas não passava de um artista bem-sucedido e rico. O que era bem diferente. Quando viu que a amizade de Alegra já não lhe era mais útil, descartou-a como quem descarta um papel amassado e sujo, mas tratou de fingir que nada havia mudado. E acreditou que fingia como ninguém. A moça não mais recebeu e-mails ou telefonemas, entretanto. Só ela gastava seu tempo com esse tipo de coisa. Corsani estava, decerto, ocupadíssimo com a arte de atuar, era um cineasta primoroso, um cérebro como nenhum outro, mas não sabia o essencial na vida. Sabia tanto e sabia quase nada.
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por Diego Spagnuelo às
19:52
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Sábado, Novembro 10, 2007
A leveza do tempo
Numa tarde quente a flor de cerejeira desprendeu-se do galho em que se encontrava presa e começou a cair levemente. Cientistas ao redor do mundo criavam aparatos avançadíssimos, desenhavam arquiteturas abarrotadas de inteligência artificial e buscavam métodos de suavizar as vindouras catástrofes climáticas enquanto a flor continuava caindo. O oxigênio terminava, o mundo atingia temperaturas assustadoras e vários países vinham sendo visitados por nevascas e chuvas torrenciais enquanto a flor continuava caindo. As pessoas quase não saíam de dentro das casas, as crianças estudavam com seus professores virtuais e os automóveis levantavam vôo enquanto a flor continuava caindo. Projeções virtuais podiam ser tocadas como objetos sólidos e nos humanos foram instalados chips para controle da saúde enquanto a flor continuava caindo, e caindo, e caindo; como foi por séculos. Quando finalmente chegou ao solo, encontrou o que parecia ser uma superfície polida de acrílico e alumínio de onde saíam cabos verde-petróleo que imitavam vagamente as vegetações de seu tempo. Um ser esguio e silencioso flutuou até a flor de cerejeira e apertou-a contra o peito. Era tarde agora, de sua árvore ela já havia caído.
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por Diego Spagnuelo às
22:13
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Sexta-feira, Novembro 02, 2007
Os condões da feitiçaria moderna: Encantos da moda
É comum ouvir que a característica máxima dos feiticeiros e bruxos é a de serem adeptos da cafonice e do mau gosto sem limites. Leviandade. Apesar de alguns deles esforçarem-se e muito para se manter fora do que é atual, fugindo da moda como quem foge do Diabo, a maior parte deles prefere seguir as tendências estilísticas do vestuário. Compram suas roupas em lojas finíssimas e (quando bem abastados) caríssimas, a fim de trajar apenas o que de melhor há. E são, como se pode notar, um pouco fúteis e exagerados agindo dessa maneira. Mas, como alguns deles dizem para se defender, o que seria da madrasta da menina Branca de Neve, cuja história foi narrada pelos irmãos Grimm, se fosse mal vestida e pouco preocupada com a aparência? Não seria, certamente, a bruxa poderosíssima que foi. Embora esteja associada somente a atitutes excêntricas e perversas, estariam mentindo se negassem que esse mau exemplo de madrasta, culturalmente famosa por sua cruel obsessão pela beleza, marcara imensamente os rumos da moda mágica. Por outro lado, é gracioso saber que alguns feiticeiros, mesmo adorando as grifes da gente não-mágica e não resistindo a ternos e vestidos da alta costura, ainda guardam com carinho suas peças convencionais, usando-as para dormir ou passear em locais ermos. Os grandes favoritos são as meias coloridas de lã ou tecido fino, os chapéus espalhafatosos com fivelas douradas e as calçolas de pano amarelado em estilo balonê.
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por Diego Spagnuelo às
14:34
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