Quarta-feira, Outubro 17, 2007



O egoísta Dr. Cinzo

O diminuto Cinzo fora, desde infante, uma criatura pavorosamente egoísta. Gostava de construir grandes castelos de areia e gabar-se para as outras crianças. Quando estava envolvido em suas obras arquitetônicas de sílica e sal não via além de seu nariz, passava por cima dos castelos alheios e não sentia remorsos, adorava destruir as pequenas edificações dos amigos. Quando acabava uma de suas "obras" discursava sobre seus dons, convencendo adultos e crianças a tecerem grandiosos elogios a seus talentos pueris. Mais tarde, Cinzo tornara-se Dr. Cinzo, um aclamado bioquímico. Era brilhante, de fato, mas continuava egoísta. Seus conhecidos e familiares temiam encontrá-lo andando por aí, porque se isso acontecesse certamente teriam que, de alguma forma, elogiar sua genialidade, seu brilhantismo e grandiosidade. Cinzo deixara, há muitos anos, de se alimentar de comida e passara a devorar congratulações falsas, recheadas de exagero e medo.



Publicado por Diego Spagnuelo às 18:43
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Domingo, Outubro 14, 2007



Festa de gala

Às noites refrescantes de primavera, quando os donos do casarão iam ao teatro, as roupas de todos os guarda-roupas fugiam de seus postos e desciam até o gigantesco hall de entrada. Reunidas em aglomerações de distintas cores, ficavam tremelicando suas pernas magras de pano e abanando delicadamente os braços sem mãos. Esperavam o smoking, bastante envelhecido e cansado, descer as escadas e escolher um disco para começarem a dançar. Mas, antes que o abatido traje chegasse ao encontro dos demais, havia tempo para formar os casais. Camisas convidavam vestidos, calças convidavam casacos, sapatos convidavam meias. E tudo logo estava ajeitado. A vitrola tocava suas músicas somente até às duas da manhã. Quando era chegada a hora, o smoking tratava de encerrar o baile, guardava os discos nas estantes da biblioteca e posicionava cada roupa em seu devido lugar. Aconteceu, porém, de um dia perderem a hora. Os donos da casa os tinham surpreendido no ato. Mas, como já era tarde, não se deram conta do que estava acontecendo. O que fizeram foi apanhar suas respectivas roupas de dormir (que flutuavam no ar), subir as escadas vagarosamente até o segundo andar da casa e deitar sobre a gigantesca cama de casal localizada no quarto principal. Estupefatos, os trajes todos se recolheram a seus aposentos. Também para eles já passava da hora de dormir.



Publicado por Diego Spagnuelo às 19:49
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Sexta-feira, Outubro 12, 2007



Apolinário: A ex-esposa de Lourenço

Se não contasse com os préstimos competentes de ajudantes como o espirituoso Olívio ou a graciosa Mirela, Apolinário não poderia ter criado grande parte de suas maravilhas culinárias e nem conseguido sobreviver às irônicas investidas do destino. Lembra que levou anos para montar sua pequena equipe de funcionários, mas que até hoje não se arrepende de sua prudência. Na cozinha do "Monsieur Betterave", além dele, estão oito pessoas em quem confia cegamente e permite dar vida a pratos cujos segredos mantém a sete chaves. Quando está em viagem, quase sempre em busca de sua maravilhosa iguaria (e faz isso no mínimo três vezes por ano), deixa o controle de seu restaurante ora nas mãos de Olívio, ora nas de Mirela, e nunca teve motivos para reclamar. Na verdade, não fossem os dois, teria de passar por situações constrangedoras como quando recebe em seu estabelecimento a sempre fortuita visita de Iolanda, a inconveniente ex-esposa de seu irmão Lourenço, que vive a lançar comentários estapafúrdios e deselegantes para cima do gourmet. Quando descobre que Iolanda está por vir, Apolinário tira o avental, guarda seu chapéu de chef e deixa o restaurante sob o comando de seus profissionalíssimos funcionários. Em uma dessas situações, apressado, derrubou um pouco de canela por cima de uma mousse de morangos, o que acabou dando origem a uma inusitada e elogiada variação gustativa. Apesar do sucesso criado acidentalmente, Beterraba confessa ser esta uma das sobremesas que menos gosta de preparar.

Em tempo: Iolanda acredita piamente que Apolinário tenha sido o causador de seu divórcio, já que após encomendar um maravilhoso jantar no "Monsieur Betterave", a fim de comemorar junto do amado marido os dez anos de casamento, teve com ele um sério desentendimento que, ao longo de alguns meses, culminou na separação.



Publicado por Diego Spagnuelo às 19:07
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Domingo, Outubro 07, 2007



A filha da rainha

No auge da mais plena juventude e da mais ingênua beleza, a princesa ouviu de sua própria mãe - consumida por uma inveja destruidora - que sua felicidade e vitalidade não durariam muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, dizia, transformar-se-ia num ser horrendo, odiado e asqueroso. Certo dia, disposta a agir cruelmente, a rainha descobriu um grandioso segredo e, atordoada, desapareceu. No passado, quando estava à espera da primeira e única filha, tivera pedido a uma bruxa para que fizesse uso de um sortilégio poderosíssimo. Para evitar que o homem com quem tivera desposado deixasse de amá-la, desejou que a criança que carregava dentro de si fosse terrivelmente amaldiçoada com a fealdade da alma e do corpo e que por sua monstruosidade não pudesse despertar nas pessoas qualquer espécie de comoção. Quando a criança nasceu, diziam todos, a noite tivera virado dia e todos os animais da floresta marcharam até o castelo para ver sua face rosada e radiante. Os anos foram transcorrendo e a cada dia a criança tornava-se mais bela e pura, e de seu pai tornara-se o bem mais precioso. Dominada pelo ódio, a rainha tornou a procurar a bruxa, mas não encontrou qualquer resposta. Maldições não costumavam falhar, segundo lhe assegurara. Pressionada, entretanto, prometeu-lhe fazer um sortilégio ainda mais poderoso, do qual nenhum ser humano pudesse se ver livre. Passaram-se anos, a princesa era agora uma moça crescida e, para delírio de sua mãe, linda como um dia de primavera e doce como o mel das abelhas. O rei passava seus dias observando-a correr entre lebres e cavalos, passear pelo castelo e contar suas incríveis e graciosas histórias todas as noites, de forma que a rainha não via outra saída senão pedir à sua cúmplice, a bruxa, para que lhe ajudasse a matar sua filha. Foi quando esta lhe contou o que realmente tivera acontecido, dezessete anos atrás. Antes de ser visitada subitamente à encomenda do feitiço, um cervo muito lindo e gentil tivera lhe implorado para que atendesse ao pedido cruel da rainha, que estaria à sua procura dentro de alguns dias. Sem qualquer reação racional, foi o que fez. Só meses depois, novamente visitada pelo cervo, descobriu que a criança esperada pela rainha não era sua verdadeira filha. A rainha tivera abrigado dentro de si, por ironia do destino, uma pequena semente inerte e verde, que daria origem à herdeira das florestas, irmã das flores e das árvores, filha da natureza. Vendo que os sortilégios não tinham tido qualquer efeito porque a moça que o rei tanto amava não era sua filha legítima e dela tampouco, correu floresta adentro e nunca mais tornou a ser vista.



Publicado por Diego Spagnuelo às 21:38
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Quarta-feira, Outubro 03, 2007



Um caso fantasmagórico

Eram duas e meia da manhã de um dia de setembro quando pela primeira vez ouviu os passos e as risadinhas abafadas do fantasma que dividia teto com ele. Mas, que ninguém pensasse se tratar de um fantasma como outro qualquer, que esbarrava propositalmente em vasos ou fazia cortinas tremularem a fim de assustar com elegância. Era este espírito uma criatura sem qualquer talento para os feitios fantasmagóricos que lhe deviam ser comuns. Sem talento, estabanada, baderneira e chata. Para assombrar o dono da casa, certa vez, inventou de apanhar dois sapatos velhos e bater com seus solados nos degraus da escada. Não se dera ao trabalho de verificar se o homem encontrava-se em casa. A desatenção fez-lhe trabalhar em vão durante a noite toda. Seu número de sapateado só acabou quando viu o dono da casa entrar pela porta da frente absolutamente tranqüilo e rosado, sem olheiras, sem assombros ou tremedeiras, após uma pequena, mas prazerosa viagem... Quanta incompetência!



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:57
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