Domingo, Setembro 30, 2007



Apolinário: Como uma pintura de Dalí

Além de aprender a cortar e descascar praticamente todos os tipos de legumes e vegetais presentes na culinária mundial, Apolinário Beterraba teve de decorar pratos, lavar talheres, comandar entregas e recebimentos de encomendas, comprar ingredientes e quebrar vários ovos para chefs respeitados. Isso quando ainda era um jovem aluno de gastronomia e trabalhava arduamente para obter experiência profissional. Hoje, trabalhando exclusivamente para si, é inevitável que se lembre de algumas situações que contem a história do seu Monsieur Betterave com certo humor. Diverte-se fartamente ao se lembrar, por exemplo, da contratação da decoradora Rosalinda Monteiro quando da construção de seu estabelecimento gastronômico e de seu peculiar mau gosto. Por indicação de conhecidos, Beterraba recorrera aos préstimos nada baratos da famosíssima Rosalinda, que ao pôr nele os olhos luzidios que tinha, cismara em dizer-lhe a cada meio minuto que se parecia e muito com o pintor espanhol Salvador Dalí. Apolinário tinha lá suas semelhanças com o artista surrealista (as extremidades de seu bigode eram pontudas e curvadas para cima e suas sobrancelhas eram grossas, também), mas achou inconveniente que ficassem falando nisso o tempo todo. Mais inconveniente que isso, porém, foi ter de ouvir da boca da decoradora que esta só estaria disposta a ajudá-lo se pudesse decorar seu restaurante com elementos que se relacionassem à arte de Dalí. Quando viu entrar porta adentro uma réplica do "Retrato de Mae West" até concordou que a ideia pudesse ser boa. Mas as coisas mudaram quando Rosalinda apareceu com uma cópia fiel do inusitado "Telefone-Lagosta", outra das obras do espanhol. Aquilo fora a gota d'água. Havia limites para tudo na vida.



Publicado por Diego Spagnuelo às 20:14
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Sábado, Setembro 29, 2007



A cerzideira só

Pregou um botão para as mágoas, um para as dores, um para as injustiças e outro para os pecados. O céu agora estava turquesa, e parecia arrancado dos olhos que tinha. O vestido sem botões que costurava estava também turquesa, e quando o céu tornou-se inesperadamente cinzento, a roupa imitou. Logo começou a chover na rua. Em outros tempos, as mãos ligeiras desejavam ser capazes de acabar vestidos antes de começar a chover. Nos tempos atuais, por vontade própria, o processo durava anos. Para ver-se livre de solidões, pregava suas angústias em vestidos feitos sob medida para ninguém, e depois, com honra e inebriada por algum orgulho, inquiria ao cliente abstrato se a encomenda estava a contento. Nunca estava. Restava-lhe desfazer as costuras com delicadeza e recomeçar. Para os recomeços levava outros anos, tinha dúvidas terríveis, fazia confusões entre "inícios" e "fins", esquecia-se como fazia para encarar o tecido, a linha, a própria face refletida em espelhos. E quando lembrava, pregava as agruras que carregava no coração por sobre uma das extremidades da roupa. Em outra inventava orifícios minúsculos, irregulares. Neles não passavam mágoas, dores, injustiças, pecados; muito menos turquesas celestes, olhos apagados de solidão, chuvas repentinas.



Publicado por Diego Spagnuelo às 00:21
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Quarta-feira, Setembro 26, 2007



A flor

Em uma imensa cúpula de vidro havia vários mundos. Em um deles havia quatro reinos. O primeiro reino era o de Primever, a enamorada. O segundo era o de Verona, a voluptuosa. O terceiro era o de Oton, a justa. E o quarto era o de Invera, a cruel. A um só tempo, dos reinos tão distantes em que viviam, Primever concebia uma flor vermelha como o sangue, Verona deixava-a delicada e macia, Oton a amarelava e envelhecia e Invera a matava.



Publicado por Diego Spagnuelo às 22:39
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Sexta-feira, Setembro 21, 2007



Os condões da feitiçaria moderna: Questões imobiliárias

Apesar de a economia no mundo mágico não andar essas coisas, no segmento imobiliário, ironicamente, a situação é outra. Há ofertas e interessados aos montes. Casas abandonadas, esquisitas, fora de moda, convencionais e moderninhas, todas têm seu charme. Havendo uma ampla sala de estar, uma lareira e uma árvore velha, as chances de encontrar um comprador bruxo são grandes. E ainda maiores se o local possuir bons espelhos ovais, caldeirões de cobre ou estanho e livros de todos os tipos. Feiticeiros adoram ler livros antigos, cheios de bolor e cobertos de segredinhos enterrados em pó e séculos. Costumam ter em suas residências grandes estoques de livros de feitiçaria, cadernos de culinária e uma quantidade razoável de revistas com a programação dos canais por assinatura. Bruxos e bruxas modernos não conseguem viver sem seus filmes e séries preferidos, são espectadores assíduos e sedentos por entretenimento despretensioso. Os mais precavidos e sisudos, por outro lado, costumam instalar em suas casas canais por assinatura com programação voltada para a saúde e para os negócios, em uma tentativa de manter vivo o interesse pelas coisas "sérias" do mundo moderno. Os bruxos que não possuem televisão paga em seus lares, são adeptos de outras atividades, que não, passar várias horas diárias em frente a um monitor de vidro assistindo a séries enlatadas. Alguns vivem a decorar os cômodos de suas casas, outros se dedicam à dança de salão (no caso, à dança de sala de estar) e outros fazem artes manuais, como patchworks com forros de baús velhos e bonequinhos decorativos com meias de algodão listradas.



Publicado por Diego Spagnuelo às 23:05
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Quarta-feira, Setembro 19, 2007



Apolinário: Uma pequena obsessão

Apolinário Beterraba divide-se desde os vinte e cinco anos entre viagens e trabalho atrás de um tempero maravilhoso e único que assegura ter provado, certa noite, em sonhos. A iguaria sonhada não possuía nome, mas possuía cheiro e sabor característicos, o que para ele já era o suficiente. Apesar de seu imensurável afinco, Beterraba até hoje não obteve qualquer sucesso em suas viagens ao redor do mundo. Encontrou coisas tão maravilhosas, intensas e interessantes quanto, mas nada que efetivamente parecesse com o que tivera degustado naquela noite inesquecível. Um dia, ao visitar seu analista, bastante desanimado, este lhe assegurou com sua "altíssima" sapiência que a iguaria fabulosa e única que procurava tão desesperadamente era fruto de uma ânsia sua pela quintessência profissional. Em seu pequeno, porém aclamado, restaurante, o Monsieur Betterave, todos os clientes queriam um dia provar o tempero de que o chef tanto falava. Imaginou o quanto ficariam desapontados se soubessem que tudo não passava de um grande engano; não teve coragem de contar que o tempero jamais poderia estar presente em qualquer um de seus pratos. Eis, porém, que as coisas mudaram. Certo dia, ao visitar uma feira de rua no Marrocos, interessou-se por um pequeno e antiquíssimo livro de receitas e leu algumas de suas páginas. Em uma delas encontrou a mais perfeita descrição da iguaria que procurava, muito embora não constatasse qualquer referência a nomes, formas ou cores. Era, segundo a obra, "raríssima e plena em sabor e aroma, dotada de valores inestimáveis e coberta de maravilhosas nuances sensoriais". Seu tempero, concluiu felicíssimo, era real. Naquele momento, lembrou do que seu analista havia dito, ponderou por alguns instantes e voltou a dividir-se entre viagens e trabalho.



Publicado por Diego Spagnuelo às 13:16
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Segunda-feira, Setembro 17, 2007



Os condões da feitiçaria moderna: Economia

A feitiçaria antiga já não é a mesma. Uma lástima. Os feiticeiros e as feiticeiras à moda antiga, cada vez em menor número, estão desesperados. Nas atuais circunstâncias, tudo é difícil de ser realizado. Quase não praticam encantamentos, bons produtos mágicos são raríssimos, confraternizações tornaram-se exemplos claros de grande dispêndio e não contam com a presença de muitos. E a coisa é muito maior. Nos últimos dias, por crises econômicas, foram cessadas as vendas de alguns ingredientes fundamentais no preparo de grande parte das poções. Entre eles estão os olhos defumados de sapo e as pernas de aranha avinagradas. Segundo estudos, esta está sendo uma das mais agudas crises econômicas pela qual o mundo mágico já passou. Consternados, os feiticeiros mais idosos e conservadores assistem, já sem saber o que fazer, ao fechamento de inúmeros negócios de família, que começam deixando de vender certos produtos e acabam cerrando suas portas para sempre, todos os anos. Se bem que, se tudo isso depender dos outros feiticeiros, a crise permanecerá do jeito que está. A grande maioria encontra-se incontestavelmente adaptada ao mundo não-mágico e isso só faz enfraquecer sua própria economia. Há anos é possível encontrar bruxos carregando por aí, sem constrangimentos, sacolas de compras vistosas que além de páprica selvagem, por exemplo, trazem dentro de si sucos em pó coloridos artificialmente e de sabores variados e lasanhas para micro-ondas de preparo ultrarrápido. A feitiçaria moderna é, apesar de tudo, irreverente.



Publicado por Diego Spagnuelo às 09:51
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Sexta-feira, Setembro 14, 2007



Ultraje

Madame Rogance era uma mulher bela e idosa que vivia em um castelo de vidro espelhado no alto de uma montanha dourada. Todos os dias, utilizando-se de seu inestimável mas, muitas vezes equivocado poder psíquico, podia acompanhar a vida alheia através da superfície polida e brilhante dos espelhos. Era demasiadamente cega, entretanto. Acreditava nas cenas que via sem atribuir a estas os devidos contextos. Se alguém dizia seu nome era porque a amava sem limites, se alguém fazia algo que também costumava fazer era porque sentia inveja, se alguém obtinha sucesso em sua vida era porque ela tivera influenciado. E vivia sozinha em seu castelo maravilhoso desde sempre. Um dia precisou descer a montanha e percebeu perplexa que quase ninguém sabia quem era, que não viviam suas vidas de acordo com ela, que eram pessoas comuns o tempo todo. Quando raramente proferiam seu nome era para se referirem à vaidade cruel que sustentava, quando faziam coisas parecidas com as que fazia era porque sempre as tinham feito, quando obtinham sucesso era por mérito próprio. Ao dar-se conta disso, Rogance subiu a montanha, admirou inebriada todos os espelhos de seu castelo e seguiu vivendo como se nada tivesse acontecido.



Publicado por Diego Spagnuelo às 00:21
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Quinta-feira, Setembro 13, 2007



Orgulho

O velho havia convidado para a celebração alguns velhos conhecidos. Todos muito esquisitos, cheios de pompa, estáticos, quase mortos. À mesa, ninguém ousou dizer qualquer palavra, nem mesmo quiseram provar as especiarias oferecidas. O anfitrião estava aborrecido, arrastou irritantemente sua cadeira e olhou para todos os convidados. Pareciam nem ter percebido sua presença, estavam frios, indiferentes. Recolheu cada um dos presentes e os colocou nos devidos lugares: colheres no lugar das colheres, facas no lugar das facas, garfos no lugar dos garfos. Só a espátula parecia viva, balançava a cabeça negativamente enquanto olhava para a caixa de talheres. "Quer que o ajude a cerrar a caixa, meu senhor?" - peguntou ela. "É claro que não." - e a colocou com os outros. Precisava ser rápido, queria chorar, mas não o faria na frente deles.



Publicado por Diego Spagnuelo às 23:11
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